O Príncipe

Este trabalho alcançou a grande reputação que o tem mantido através dos séculos, como o livro mais lido pelos que se interessam pelo relacionamento humano.

Não fora este livro e Nicollo Maquiavel teria vivido e morrido como tantos outros dos seus contemporâneos: esquecido para a posteridade. É um bom contributo ao Comhecimento.

Pequena Biografia do Autor

 Niccolo Machiavelli era natural de Florença, cidade República da Itália, onde nasceu em 3 de Maio de 1469, de uma família antiga e respeitada.

 Sendo filho de um jurista, teve uma vida dedicada aos serviços do Estado, embora sempre em posições secundárias. Entre as suas principais missões, a mais importante foi a representação diplomática que exerceu, em nome do seu governo, junto a César Borgia, em 1502.

 Este encargo, que o obrigava a mudar a sua modesta vida e a tratar com o Duque, em nome do governo de Florença, não lhe dava muita satisfação, mas exerceu-o com honestidade e ardor, tendo esta posição ajudado de algum modo a desenvolver a sua forma de ver e analisar as coisas.

 Esteve envolvido como suspeito numa possível conspiração contra o Cardeal Giovanni de Médici e conseguiu sair dessa dramática situação através de um indulto do Papa Leão X, mas não sem ter ficado exilado por mais de um ano, o qual ocupou com a sua atividade literária.  São dele as seguintes obras : O Príncipe; As comédias; Os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio; Os Sete Livros sobre a Arte da Guerra; A Vida de Castruccio Castracanni.

 No retorno de uma viagem que fez a Civitta Vechia em 1527, adoeceu e morreu aos 22 de Junho, desse ano.

 

O Prefácio

 No seu curto, embora famoso livro, “ O Príncipe”, Maquiavel quase se torna autor do que poderia ser chamado de “ Manual do Absolutismo”, mas não era essa a sua intenção .

 Devemos ter em conta, para uma melhor interpretação de “ O Príncipe”, a época  em que este foi escrito, e o seu destinatário final.

 A economia feudal estava em derrocada e o capitalismo em ascensão; as soberanias locais eram substituídas por monarquias e os Príncipes adquirindo cada vez mais Poder.

 Maquiavel era um inquieto em relação à situação que se desenrolava ao seu redor, pois defendia a unidade italiana e presenciava cada vez mais a sua divisão em pequenos feudos.

 Nota-se que, a reforma Política, o livre exame dos fatos históricos, o ataque ás tradições medievais, a instituição do êxito como única medida do poder do Príncipe, a aplicação da Justiça como forma de garantir o Poder e  a rotura do temporal com o espiritual, são temas base que ele conhece e interpreta muito bem. 

 O autor reflete agudeza e inteligência, na forma como observa os fatos contemporâneos e discorre sobre as linhas fundamentais necessárias ao desenvolvimento histórico posterior.

Capítulo I

 De quantas espécies são os Principados e de quantos modos se adquirem.

 Todos os Estados, naquele tempo, eram Repúblicas ou Principados.  A maior parte, cidades-estado.  Os Principados seriam: ou hereditários, ou  novos.

Nos primeiros, o seu detentor é um príncipe de linhagem consanguinea, colocado no poder por direito de família.  Nos outros, o Poder vem, ou pela conquista, ou pela anexação voluntária e consentida.

Toma-se conhecimento que estes Estados, se já estão dominados e habituados a se submeter a um Príncipe não ousam buscar outra saída, mas as lutas pelo poder se desenvolvem ao nível dos cortesãos; sendo livres, ou são tomados pela força, com tropas próprias ou mercenárias, ou adquiridos pela  sorte, através da decisão dos cidadãos que buscam por este meio a proteção de um senhor mais forte, entregando a este os seus destinos.

 

Capítulo II

Dos Principados Hereditários

 Neste  tipo de Estado, onde o Povo através do tempo se habituou ao seu Príncipe e descendência, as dificuldades são menores, sendo apenas necessário manter a Política e o tratamento dado aos súditos e contemporizar com as situações singulares.

 Se o Príncipe é inteligente e maleável, sempre se manterá no seu Estado, desde que  forças ou acontecimentos fortuitos, não o atinjam, mas, se isto acontecer, ele pode retomar o Poder, por mais forte que seja o ocupante, pois contará com o apoio do Povo.

 Temos como exemplo dado por Maquiavel,  o Duque de Ferrara, na Itália, o qual resistiu ao ataque dos Venezianos em 1484 e aos do Papa Júlio em 1510, somente por ser antigo o domínio da sua Família, e grande a simpatia que o povo tinha por ele.

Capítulo III

 Dos Principados mistos

Neste caso, as massas  serão mais difíceis de conduzir, pois não se tratando de Principado totalmente Novo, mas sim de anexação a um Estado hereditário, tornando-se os dois um  “ Principado Misto” , os obstáculos na governação nascem sobretudo de um obstáculo encontrado em todos os Principados Novos, onde os homens mudam de governante, mas nem sempre o aceitam com boa vontade, verificando muitas vezes que mudaram para pior, o que os faz se isto estiver ao seu alcance, tomar armas contra o novo Senhor Feudal, ou se isto não for possível, lhe dificultam o destino.

 Os Estados “conquistados” e anexados a um Estado antigo, se são da mesma província e do mesmo idioma, são facilmente sujeitos a viver o novo status.

 Mas, ao conquistar uma província de língua, costumes e leis diferentes, devem ser encaradas as dificuldades inerentes à situação, sendo necessário grande habilidade e boa sorte para poder conservá-la. 

 Um dos meios é o Príncipe se fazer presente, fixando aí a sua residência, pois assim pode presenciar o nascimento das possíveis desordens e pode remediá-las com maior presteza.

 Também é de muita importância, que o Príncipe seja protetor dos menos favorecidos, enfraquecendo os mais poderosos no seu Principado e impedindo o estabelecimento de novos senhores, estranhos ou estrangeiros, sobretudo se são poderosos, pois o Povo pode tomar estes como seus defensores contra aquele que os desgosta com suas leis. Segundo Maquiavel explica ao seu Príncipe, os Romanos seguiram esta Política, pois estabeleceram colônias, fortaleceram os menos poderosos, tiraram força aos que tinham mais poder, servindo com suas atitudes, de exemplo á província da Grécia. Roma sustentou os Aqueus, abateu os Macedônios e expulsou  Antíoco.

 Sendo assim, o anseio de conquistar é natural e inerente ao Homem.

 Os Homens que podem fazê-lo, serão enaltecidos em vez de criticados.  Na França, ele cita como exemplo o Rei Luís, que perdeu a Lombardia, por ter negligenciado os princípios usados por seus antecessores, que souberam conquistar províncias e conservá-las.  Quando alguém é veículo do Poder de outrém, arruina-se, pois quase sempre aquele Poder vem de astúcia ou força e qualquer destas é suspeita ao novo Poderoso.

 Capítulo IV

 Porque razão o Reino de Dario, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra os sucessores deste.

 

Conhecendo as dificuldades para se conservar num Estado que acabara de conquistar, Alexandre Magno que foi Senhor da Ásia e que faleceu, pouco depois de ocupar aqueles Estados, conseguiu evitar rebeliões que seriam previsíveis.

 Mas os sucessores de Alexandre, se é certo que se mantiveram e não tiveram muitas dificuldades, criaram eles mesmos entraves á sua tranqüilidade pelas querelas  que entre eles surgiram, fruto da sua própria ambição.

 Os grandes Príncipes governaram quase sempre, ajudados por Ministros subservientes, que não detêm o Poder nem podem arregimentar seguidores o que torna tranqüila a posição do Príncipe, ou por Barões, nomeados por antigüidade de sangue ou por mérito, os quais têm seus domínios e súditos próprios, servindo lealmente e com honra o seu Príncipe e senhor.

 São exemplos disso, na descrição do livro, o Governo Turco, exercido por um Senhor que tratava os ministros como servos e  o Reino da França, onde o Rei  estava situado em meio a uma profusão de Senhores, cujo domínio era tradicional, e tão poderosos que o Rei não podia mexer nas suas prerrogativas e privilégios, mas se sentiam honrados por servi-lo.

 Numa análise cuidadosa ao que foi o governo de Dario, iremos encontrar paradigmas que nos conduzem ao Sultão da Turquia; a Alexandre, para quem não foi suficiente vencer o inimigo, pois após a vitória, só quando Dario foi morto, ele pode considerar o Estado seguro e o seu poder consolidado, pois até aí era sempre possível uma retomada de poder pelo monarca cessante.

 Mas os sucessores de Alexandre, que haviam recebido o Poder sem qualquer esforço, não se mantiveram unidos nem souberam seguir os sábios conselhos do conquistador, e não puderam usufruir tranqüilos e pacificamente o grande Reino que receberam.

 Capítulo V

Da maneira de conservar Cidades ou Principados, que antes da ocupação se regiam por leis próprias.

 Neste capítulo, Maquiavel instrui o seu Príncipe sobre um assunto que ele considera importante e descreve as formas de manter a conquista ou o Poder, nos Estados que antes de serem conquistados ou ocupados já tinham as suas próprias leis. 

Segundo ele, são três as formas de atingir esse fim:

Primeira - Arruiná-los.

Segunda - Ir habitá-los.

Terceira  - Deixá-los viver com suas leis inalteradas.

 Para isso, o Príncipe deve criar um governo de poucas pessoas e  que não fique distante do Povo.  Ele aponta o exemplo dos Espartanos, que criaram em Atenas e Tebas governos oligarquicos, o que os conduziu à perda destas cidades.

 O Povo tende a guardar recordações de suas antigas leis e tradições e, a cada vez que pretenda rebelar-se contra o novo Senhor, se este não o satisfaz, levanta estas recordações como bandeira.

 Assim, aconselha ele, para conservar uma República conquistada, a forma mais segura é destruir as bases que suportam a hierarquia, ou habitá-la pessoalmente.

 Capítulo VI

 Dos Principados Novos que se conquistam pelas armas e nobremente.

 Quando os Estados são governados por Príncipes conquistadores, o equilíbrio entre a luta por manter a posse e as dificuldades inerentes á governação, é encontrado e regulado pelas qualidades intrínsecas do próprio conquistador.

 Verifica-se com freqüência  que alguns menos ditosos ou que á partida apresentavam menos possibilidades, conseguiram governar mais tempo.

Isso pode ser fruto de indulgencia ou sabedoria. Se o Príncipe escolhe habitar no Estado conquistado, seja por decisão própria ou por não ter outros territórios, isso irá facilitar sua  regência, como mostram os exemplos dos que mantiveram a posse pelo valor próprio e não apenas pelo fator sorte. O autor aponta: Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu.

Do primeiro, ele explica que o fato de ele ser grande ao ponto de poder falar com Deus, o torna digno de ser admirado e analisadas suas ações.

 Os favorecidos que foram Príncipes pela força de suas virtudes, podem até ter conquistado o Poder com dificuldade, mas uma vez atingido este, se sustêm sem problemas.

Alguns porém , podem surgir da necessidade de impor novas leis, hábitos ou costumes, tanto pelas necessidades da Regência do Estado, como para a segurança do governante.

 O novo regulador ou impositor das leis, arregimentará seus principais inimigos, entre aqueles que se beneficiavam das leis anteriores e paradoxalmente, não poderá contar com grande apoio, dos que se beneficiarão com a nova legislatura.

[ Aqui, cita ele, Hierão de Siracusa que, se tornou Príncipe pela sorte, pois os Siracusanos que se sentiam oprimidos, jogaram nele todas as suas esperanças e elegeram-no seu capitão. Pela sua atuação no posto a que fora guindado ele soube merecer o respeito dos seus eleitores e tornar-se Príncipe por direito.

Capítulo VII

 Dos Principados novos, que se conquistam com armas e virtudes de outrém.

 Os que se tornam Príncipes, apenas porque são bafejados pela sorte, têm pouco trabalho para isso, mas só se conseguem manter á custa de grandes concessões.

Se é certo que alcançam o cume sem grande dificuldade, lutam depois com grande esforço para conseguirem contornar os obstáculos que logo lhes começam surgindo pela frente.

 Maquiavel cita ao destinatário de sua missiva, o que aconteceu na Grécia , nas cidades de Iônia e Helisponto, onde o Poder foi concedido como doação. Nestes casos, Dario nomeou príncipes para desta forma sustentar sua estabilidade e poder mas, para estes não foi uma boa barganha, pois ficaram na dependência de quem os colocou á frente do Estado, sendo por isso incapazes de por seus próprios conhecimentos ou virtudes, manterem o que lhes havia sido confiado.

 Outro caso digno de análise é o dos Estados que despontam repentinamente, pois eles se apresentam frágeis e incapazes de enfrentar o infortúnio ou os revezes, quando eles se oferecem. 

São citados os exemplos de Francesco Sforza e César Bórgia.

César, conhecido por Duque Valentino, consegue o Estado graças à fortuna de seu pai e, quando esta lhe falta, não tem força suficiente para se manter, embora tendo lutado com todas as suas forças para reverter a situação que se apresentava.

 Quanto a Francesco Sforza, verifica-se que teve um destino diferente, pois devido ás suas virtudes e capacidades, conseguiu se erguer, de simples plebeu que era, à poderosa situação de Duque de Milão. E conseguiu manter, embora com grandes esforços e sacrifícios, tudo o que havia conquistado.

 Alexandre VI, que envidou todos os seus esforços para levar seu filho à grandeza de um alto posto, não conseguiu atingir o seu desejo. Este desejo, que era vê-lo ser  governante de um Estado fora do âmbito da Igreja, jamais poderia ser concretizado, pois se chocava com os interesses do Duque de Milão e dos Venezianos que nunca aprovariam  este plano.

 Num esforço desesperado, conseguiu o apoio do Rei de França, o qual trouxe os seus exércitos até à Itália onde, com a ajuda dos Venezianos, o Papa conseguiu as forças necessárias para impor o seu domínio à Romanha.

Mas, uma vez esta conquistada, houve que aniquilar os Colonna, família tradicional e poderosa, com as mesmas pretensões de Poder. Quando tudo parecia certo, surgiram dois novos impedimentos, os interesses da França e a vontade das tropas próprias que, por mercenárias não eram confiáveis.

Isto demonstra o título do Capítulo. Conquistas com forças de outrem não são mantiveis. O Autor mostra como foi difícil a gestão de todas as triangulações necessárias à manutenção do Poder, como:

 A falta das tropas dos Orsini

      As gestões para conciliação destes Orsini e dos Collona ( duas famílias poderosas) Seu relacionamento com a França e com o seu Rei.

      A tentativa de eleger um Papa espanhol.

 O Duque errou em vários pontos e acabou causando a sua própria ruína, o que insinua que poderia ser um bom guerreiro mas era um mau político.

 Foi traído no final por aqueles a quem no passado havia infligido dissabores, julgando que estes poderiam ter sido esquecidos por se encontrar em posição elevada, 

E o autor cita sábias palavras ao dizer “ Engana-se quem imaginar que, nos grandes personagens, novos benefícios podem fazer esquecer antigas injúrias” .

 Capítulo VIII

 Dos que alcançaram o Principado pelo crime.

 Alguém pode chegar ao Principado, através do uso da maldade ou de favores dos seus concidadãos.

 Maquiavel cita que Agátocles Siciliano, chegou a Rei de Siracusa. Sendo filho de um oleiro, transcorreu a sua mocidade através de práticas criminosas. Tendo chegado a Pretor de Siracusa, decidiu tornar-se o Senhor da Cidade e manter o Poder pela força, mas sem recorrer ao auxílio ou aos favores de terceiros. Aproveitando-se de Amílcar, cartaginês que estava com seus exércitos na Sicília, reuniu em determinada  manhã, o Povo e o Senado de Siracusa, como se se tratasse de uma mera formalidade política para consultas oficiais. A um sinal de comando emitido, os seus soldados mataram os Senadores e todos os homens proeminentes das cidade, tendo ele assumido o Poder sem qualquer reação dos cidadãos .

Conseguiu manter-se sem qualquer hostilidade por parte do Povo e pareceu ter capacidade para governar, pois libertou a cidade do assédio a que estava submetida e venceu os Cartagineses.   Parece que as suas vitórias se deveram a méritos e não à sorte.

 Ainda aqui, Maquiavel dá um bom conselho ao seu Príncipe e este merece ser citado:  “ As afrontas, agravos, insultos ou ofensas, devem ser feitos todos de uma vez para que doam menos. Já os favores, mercês e obséquios, devem ser distribuídos pouco a pouco, para que vão sendo lembrados e possam trazer retorno ao benfeitor”.

 Um príncipe deve capitalizar nos seus súditos, boas lembranças, para delas tirar partido nos maus momentos. 

Capítulo IX

 Do Principado Civil  

Se um Cidadão consegue chegar a Príncipe na sua Pátria, sem usar a força ou a violência, mas apenas porque esta é a vontade dos seus patrícios, ou daqueles que detêm o Poder, é um sinal de que ele já demonstrou ter boas qualidades para o desempenho desse alto cargo, pois as pessoas não desejam ser governados por tiranos e todos sabem e a História demonstra, que o Poder cega os Homens e que todos os que alcançam altos cargos acabam violentando o Povo.

 O Principado deve ser definido pelo Povo e quase sempre tem o apoio dos poderosos e das burguesias , pois estes dois elementos da sociedade, sabendo que por si sós não podem satisfazer o povo, delegam essa responsabilidade a um dos seus mais reputados elementos, guardando para si a tarefa de manter seus rendimentos e lucros.

 Quanto ao Povo, sabendo que não pode competir com os poderosos, busca ao eleger alguém para governá-lo, um abrigo e proteção, sob a égide desta autoridade.

 Todo aquele que for eleito pelo povo e souber manter a simpatia deste através de medidas justas e ações honestas, sempre se manterá no poder. Já os que forem eleitos apenas pelos favores dos poderosos, não conseguirão governar, se não souberem conquistar a simpatia do povo, através da justiça e da eqüidade. O Povo não é difícil, apenas não deseja ser oprimido.

Capítulo X

Como se devem medir as forças de todos os Principados.

Para se ter uma idéia  concreta das necessidades de força de um Principado, deve se fazer uma análise da forma como o Potentado se comporta e se ele tem forças suficientes para se defender em caso de necessidade ou se precisa da ajuda de terceiros.

Príncipes ricos em gente e fortuna, podem viver na tranqüilidade, pois conseguirão fazer frente a qualquer  agressor.

Já os que não têm essas possibilidades, precisam do refúgio e proteção de suas muralhas e não poderão enfrentar inimigos em batalhas de campo aberto.

Em qualquer dos casos porém, terá sempre mais vantagem, o Príncipe que contar com a boa vontade do seu povo, e não despertar o ódio deste, pois ele se juntará ao seu redor, nesses momentos em que a defesa seja necessária.

 O povo resistirá e o pouco que houver para dividir será sempre para todos em caso de cerco ou assédio.

Capítulo XI

 Os Principados Eclesiásticos

 Verifica-se aqui, que os Principados Eclesiásticos encontram a sua sustentação na própria hierarquia da religião. São instituições fortalecidas pela força dessa mesma hierarquia, que permite manter os Príncipes no Poder, independentemente da sua rotina e procedimentos.

 São estados que não precisam ser defendidos e são súditos que não precisam ser governados, pois ninguém ousaria tomar estes estados e os súditos não ousariam revolta contra os seus senhores.

 Tanto a defesa quanto a força da dominação vêem de um poder superior ao Homem, que o aceita sem discutir e dele tira a sua felicidade.

 Mas não passa em claro, sem comentar a ambição dos prelados que fomentavam discórdia e rixas entre os barões para se fazerem úteis e manterem a sua supremacia e autoridade.

 O Papado era poderosíssimo e se impusera pela força das armas, num campo onde a bondade e as virtudes seriam mais aconselháveis.

 Capítulo XII

 Dos gêneros de Milícia e dos soldados mercenários

 Qualquer Principado necessita, para garantir tranqüilidade aos seus cidadãos e sossego ao seu Príncipe, bases de sustentação.

 Essas bases são as leis que regem o relacionamento entre as pessoas, seja esta relação particular, comercial ou de outra razão ou origem.

 Mas para a segurança são necessárias forças, com as quais o Príncipe dá proteção e mantém a ordem do Estado.

 Essas forças podem ser próprias ou mercenárias, e ainda, auxiliares ou mistas. 

As forças auxiliares ou mercenárias são perigosas, pois se mantém ativas apenas pelo soldo.  Não são dedicadas ao Príncipe, tem ambição e servem quem melhor lhes paga. 

Isto não pode trazer tranqüilidade. 

Custam caras em tempo de Paz e não são muito úteis em tempo de guerra.

 Já as milícias são formadas por cidadãos, para defesa dos seus próprios bens ou interesses.

 A Itália foi prejudicada pelas hordas de mercenários que durante muito tempo por ela circulavam e pelos capitães sem escrúpulos que infamaram o bom nome dos verdadeiros defensores da liberdade no País.

 Colocados ao serviço de quem melhor lhes pagava, ajudaram muitos senhores sem nobreza a se tornarem Príncipes, retalhando a Itália em múltiplas Senhorias, o que para Niccolo era uma afronta, sendo ele partidário da união e não da fragmentação.

Capítulo XIII

 Das Tropas auxiliares, mistas e nativas

 Tropas auxiliares, seriam exércitos de outro país ou de outro Senhor, colocadas ao serviço de um Príncipe para o socorrer em caso de necessidade.

 Maquiavel não concorda com a utilização destas tropas, pois as compara aos mercenários, visto que não estariam defendendo interesses próprios, mas sim prestando um favor. Não seriam assim uma ajuda confiável pois não colocavam o coração no empreendimento.

 Por outro lado, a sua obediência e respeito são dirigidas a outro senhor que não aquele a quem foram enviadas a servir momentaneamente.

 Isto equivale a dizer que, a qualquer momento podem receber ordens deste para abortar os interesses daquele a quem foram enviadas para ajudar, se isso mais interessar ao seu Senhor, em virtude de outras alianças ou interesses.

Todo Principado deve possuir exércitos próprios, constituídos pelos seus próprios cidadãos, pois estes colocarão mais ardor e maior honra pois estão defendendo o solo da sua Pátria.

 Capítulo XIV

 Dos Deveres do Príncipe para com as suas tropas

 Segundo Maquiavel e refletindo nesta sua afirmação, o pensamento da época em que viveu, um Príncipe deve ter como objetivo a guerra. Inerente a este pensamento, vem a necessidade de regulamentos e disciplina para as tropas, pois esta é a arte que define o comandante que se espera encontrar em quem detém o Poder.

 Esta atitude é necessária, pois é através dela que os nascidos Príncipes assim se mantêm, e os que não nasceram, a esse posto podem aspirar subir, em algum momento.

 Um Príncipe tem que manter uma constante e permanente preocupação com a sua evolução e aperfeiçoamento nesta arte da guerra, praticando-a tanto na guerra como na paz. Mais ainda neste ultimo caso, seja pelos atos, seja pelo simples acompanhamento de novas idéias.

Visando manter a disciplina, deve propor exercícios aos soldados e, para si próprio, organizar jogos e caçadas, onde alem de exercício, aprenda também a avaliar a natureza e os lugares, visando o deslocamento de tropas, o que lhe facilitará a defesa em caso de guerra.

 Deve conhecer a História dos diferentes países, tirando lição das ações daqueles que no passado tenham sido considerados como autores de grandes feitos. Saber como estes se comportaram nas batalhas e na bonança, bem como se conduziram no caminho das vitórias e das derrotas, para poder evitar estas a si próprio.

 Capítulo XV

 Das razões por que os Homens, sobretudo os Príncipes, são louvados e vituperados.

 As situações indicadas neste capítulo, têm muito a ver com a forma como o Príncipe se comporta  com os seus súditos e com os seus amigos ou cortesãos.

Um Príncipe tem que aprender a ser mau, para poder valer-se dessa alternativa em caso de necessidade, mas não deve usar a maldade o tempo todo. 

 As atitudes e o comportamento, as virtudes e as qualidades, estão na base das avaliações e dos apodos que o rotularão, tais como censura, reprovação e estigma. Ou trazer louvores e panegíricos.

A classificação vem do comportamento demonstrado, ou da forma como são analisadas as ações. E o tratamento ou  epíteto, logo será aplicado.

 É importante que um Príncipe seja prudente, ao ponto de minimizar ou evitar os seus defeitos e utilizar com freqüência as suas facetas positivas, como forma de garantir o apoio  e a continuidade do seu governo.

 Capítulo XVI

 Da Liberalidade e da Parcimônia

 Quando a liberalidade é usada apenas para granjear fama de liberal, não pode ser considerada uma virtude mas, por outro lado, se for praticada virtuosamente e da forma correta, será simplesmente ignorada sem trazer qualquer proveito ao Príncipe.

 Entende-se assim, que para que possa ter fama de liberal, este deve utilizar todas as formas e demonstrações de suntuosidade possíveis, o que sem dúvida acarretará grandes despesas que por vezes não serão suportáveis para o erário.

 Para garantir essa fama, com os custos inerentes, terá de cobrar do Povo, pois  este é que terá que pagar as despesas; serão aumentadas as rendas fiscais, numa busca frenética de dinheiro.

 Isso não será bom para a convivência com os súditos. O Príncipe deve vigiar as suas despesas, evitando sobrecarregar seus súditos com gravames e impostos.

 DEVE EVITAR EMPOBRECER, MAS NÃO DEVE EMPOBRECER O SEU POVO, pois isso não será uma demonstração de bem reinar.

Assim, talvez seja mais prudente aceitar a fama de mísero ou mesquinho, do que com a fama de liberal incorrer na odiosa e infame posição de rapinante.

Capítulo XVII

 Da Crueldade e da Piedade – Se é melhor ser Amado ou Temido

 A experiência mostra que é mais favorecido o Príncipe que é tido como Piedoso, do que aquele tido como cruel. Mas a sensatez indica, que ele também deve saber usar a aplicação dessa piedade.

 César Bórgia que foi considerado cruel, conseguiu não obstante a sua crueldade, levantar a Romanha  e uni-la, conduzindo-a à paz e à fé.

 Assim, somos levados a acreditar, que se para manter seus súditos unidos e crentes for preciso alguma crueldade ela deve ser aplicada, pois com raras excepções, este procedimento se mostra mais de acordo com as necessidades da comunidade, do que aqueles que, por demonstração de clemência  se tornam relapsos e deixam que a desordem se instale, com a conseqüente violência, latrocínio, assassinato e roubo.

 O Príncipe não deve ser ingênuo, nem  impetuoso ou arrebatado; deve conter o medo e agir com equilíbrio, prudência e sentimento de humanidade, atuando de forma a não pecar por excessiva cautela, mas evitando que a sua exagerada desconfiança o torne inaceitável.

 As perguntas são sempre as mesmas sobre o que é melhor a um governante: Ser amado ou temido?

 Para Maquiavel, deve haver um equilíbrio entre estas duas situações. Mas na dúvida ele aconselha que é melhor ser temido que amado se não for possível manter as duas.

 Ele considera o indivíduo de uma forma geral, como interesseiro, volúvel ingrato e ambicioso, pronto para ajudar os que podem trazer-lhe alguma vantagem, enquanto esta existir, mas pronto para abandonar o seu benfeitor, no momento em que ele tiver queda de prestígio.  O amor é um sentimento que poucas vezes se apresenta como verdadeiro, mas o medo do castigo é mais permanente.

No caso dos exércitos, a disciplina deve ser rígida e imposta com dureza, pois só esta conseguirá os efeitos desejados.

O Príncipe judicioso e ponderado, sabe que” deve amar os homens como eles desejam” , mas deve também fazer-se temer, embora apenas o quanto for preciso ou necessário.  Deve viver com o que for seu, evitando apossar-se do que for alheio. 

Deve evitar ser odiado, se não conseguir se fazer amar. 

Capítulo XVIII

De que forma os Príncipes devem guardar a Fé da Palavra Dada

 È digno de honras e loas, o Príncipe que procura manter a Fé e viver com dignidade, íntegro e confiável.

 Evitar a manha, o ardil e a astúcia, fazendo-se respeitar e compreender, como defensor da integridade de caráter e da retidão nas ações.

 Infelizmente a experiência mostra que, príncipes houve, autores de grandes feitos ou grandes obras, que nunca se preocuparam em garantir a palavra dada, transtornando a cabeça de outros homens e abandonando os que lhes foram leais ou úteis.

 As formas conhecidas de combate, são : Pelas Leis e, Pela Força. A primeira é própria do Homem. A segunda dos animais.

 Ainda que ao Príncipe se torne necessário por vezes, percorrer os dois caminhos, este deve sempre usar os meios legais para dirimir as suas divergências com terceiros.

 Onde não há tribunal, impera a lei do mais forte, sendo impossível invocar justiça.

 O êxito, só pelo êxito, seja este bom ou mau,  não é o caminho.

 Se o Príncipe precisar em qualquer momento faltar à palavra dada, porque as razões de Estado a isso o obrigam, deve fazê-lo de uma forma honrosa e não de forma dissimulada.

 As razões ou as causas que motivam certas decisões podem mudar. E os homens com quem lidamos também mudam, não justificando as razões por que devemos manter nossa palavra, se eles não mantém a sua.

 Não é atitude defensável, deixar-se enganar. Mas tão-pouco será, a de tentar enganar os outros.  As formas usadas para atingir os fins, serão sempre julgadas e, louvadas se honrosas, ou abominadas se incoerentes ou ditatoriais.  O Povo pode parecer levado pelas aparências, mas ele sabe avaliar os resultados e os fatos.

 Capítulo XIX

 De como se deve evitar, ser Desprezado e Odiado.

É essencial  que o Príncipe evite as ações ou atos que o tornem vil, odioso ou desprezível aos olhos do Povo. Se ele conseguir essa façanha terá logrado uma grande proeza, pois outros defeitos serão menores, para o julgamento da turba.

 O que mais o torna abjeto ou execrável, é a tendência à rapacidade e à apropriação de bens alheios, ou ao abuso das mulheres dos seus súditos.

Os homens não se sentem felizes, se lhes tiram seus bens ou a sua honra. Mas veneram os que os ajudam a conservar estas. Sendo observadas estas premissas, o Príncipe conseguirá conter também com facilidade, as ambições ou os excessos de alguns dos seus cortesãos ou homens de confiança, pois o exemplo é sempre a melhor lição.

 Ser inconstante, irresponsável, efeminado ou falho de coragem, são razões para que se odeie um Príncipe. Este deve procurar ser visto como alguém que transparece confiança, grandeza de alma e de caráter, ânimo e valor . 

Ao julgar as ações de seus súditos, deve ser justo e manter sua sentença irrevogável, para evitar a impunidade ou a descrença nas suas decisões. Deve garantir uma conduta irrepreensível e linear, para que ninguém ouse pensar em enganá-lo ou fazê-lo mudar sua opinião.

 O Príncipe que conseguir criar à sua volta uma aura de honestidade e grandeza de caráter, logrará facilidades para seu governo, pois dificilmente alguém conspira contra quem é ilibado ou reputado, ou dificilmente alguém ataca quem é tido como probo e reverenciado por seus dotes de grandeza e honra.

 O Príncipe deve estar atento porém aos que podem atacá-lo de fora, garantindo-se com boas armas e bons aliados. Muitas vezes as conspirações partem dos próprios soldados, ou de oficiais ambiciosos e sem escrúpulos, que se valem do fato da sua ascendência sobre as legiões para leválas à revolta ou dar-lhes o Poder.

Ao Príncipe que é amado pelo povo, não devem importar os receios de conspiração, mas ao Príncipe odiado por esse mesmo Povo, tudo e todos são temíveis.

 O ódio e o desprezo, foram causas da ruína de alguns imperadores romanos, mas eles criaram com suas atitudes e decisões, razões de sobra para os resultados que culminaram, em alguns casos, com sua morte.

Capítulo XX

 Se as fortalezas e muitas outras coisas que dia a dia são feitas pelo Príncipe são úteis ou não

São várias as atitudes tomadas pelos Príncipes em relação à segurança. Verifica-se, segundo Niccolo que, príncipes contemporâneos, para segurança do Estado desarmaram os cidadãos, outros optaram por alimentar facções que se digladiavam, seguindo o princípio de “ dividir para reinar”, outros ainda, optaram por se tornar odiados, conquistando ou alimentando inimizades.

 Nunca porém, antes, isso havia sido feito e ele assinala isso ao seu Príncipe. Um Príncipe novo, não desarma os seus súditos mas, pelo contrário, os arma se os encontrou desarmados.  Claro que esse armamento deve ser distribuído com parcimônia e conhecimento de, a quem se entrega, pois a posse de armas de algum modo beneficia os que as têm. Mas, desarmar os que já as possuem, significa cometer uma ofensa contra eles, pois esse ato é uma demonstração de falta de confiança que, se aparentemente significa tranqüilidade para agir, verdadeiramente se transforma em razão para ódios e pensamentos de vingança.

Uma vez consumada a conquista de um novo estado, haverá necessidade de desarmar alguns, que se tenham mostrado hostis mas, sem exageros; mesmo os que colaboraram precisam ser amaciados e, para isso, devem ser doutrinados.

 O ideal, para o bom andamento das instituições, é que com o tempo, apenas os soldados do Príncipe seja detentores das armas. Internamente, movimentos não existirão, se o Príncipe for correto no seu governo.

 Para inibir agressões externas, tem sido hábito dos Príncipes, construir muralhas e fortalezas, constituindo estas um abrigo, em caso de ataques não previstos, tanto para o Príncipe como para o seu povo.

 Capítulo XXI

 O que a um Príncipe convém realizar para ser estimado.

 Para que um Príncipe possa chamar a si a estima e admiração do seu povo, deve realizar grandes empreendimentos e dar ele próprio, grandes e bons exemplos.

 O livro cita Fernando de Aragão, Rei de Espanha, como um rei renascido, pois por si próprio se tornou, de um rei fraco, no primeiro rei cristão, pela fama e pela glória que soube captar através de um bom reinado.

 Um grande Príncipe deve aparecer como defensor das virtudes e dos virtuosos, bem como protetor das artes e dos artesãos. Deve incentivar a que os seus cidadãos exerçam livremente e com proveito para si próprios e para a comunidade, todas as suas habilidades, atividades  ou capacidades, sejam elas agrícolas, do comércio ou de serviços.

 Procurará premiar, os que se sobressaírem no contexto geral dessas atividades, de forma a fazer crescer a vontade de fazer bem, entre todos. Isso aumentará a riqueza dos cidadãos, da cidade ou do Estado.

Com o dinheiro que daí resulta, poderá manter exércitos, patrocinar artes e festividades, mantendo-se com dignidade, como grande incentivador do progresso e da riqueza dos seus concidadãos.

Capítulo XXII

 Dos Ministros dos Príncipes

 Uma das formas que o Príncipe tem de demonstrar a sua sagacidade e sabedoria, é através da forma de escolher os seus ministros, pois eles irão exercer a autoridade do Príncipe nos seus mandatos.

 O Príncipe deve conhecer bem os seus ministros e acompanhar a forma como eles se desencumbem da sua responsabilidade.

 Um bom Ministro não deve pensar em si próprio, mas sim nos interesses do seu Príncipe e do seu povo. Não deve desperdiçar o tempo do seu senhor com questões fora da esfera dos negócios do Estado, nem questionar as ações dos seus colegas de outras pastas. Evitando polêmicas que possam interferir no relacionamento interno dos seus ministérios.

 O Príncipe, para garantir a colaboração de um bom Ministro, deve também pensar nele, honrando-o e fazendo-o partilhar das riquezas que ele ajudar a acumular, de forma a que ele se possa manter íntegro e interessado no seu cargo. Evitando porém que ao receber os favores, o ministro modifique o seu caráter, passando a ambicionar sempre mais honrarias e mais favores ou riquezas.

 Quando o relacionamento entre o Príncipe e os seus Ministros se estabelece nos fundamentos aqui indicados, um clima de confiança se instala e podem confiar uns nos outros, para benefício de todos e progresso do Reino.

 Capítulo XXIII

 De Como se evitam os aduladores.

 

Em todas as cortes se podem encontrar aduladores, pois a loa faz parte do gênero humano e há sempre os que pensam em tirar partido desse lado negativo, ou fraqueza do ser humano. A forma mais correta de um Príncipe fugir à adulação, é tornar público e corrente que só lhe darão prazer, os cortesãos ou amigos que lhe falarem a verdade, pois esta não será nunca para si uma ofensa, mesmo que seja dolorosa. Por outro lado, aqueles que usarem de falsas verdades ou mentiras lhe serão ofensivos.

 Um Príncipe judicioso, sempre escolherá para conviver, no seu estado, homens sábios e circunspectos, aos quais deve dar o direito de lhe falarem sempre a verdade, ainda que possa limitar essa verdade apenas às coisas que lhes forem perguntadas.

 Todo o Príncipe precisa de Conselheiros e ele próprio deve saber aconselhar-se, mas nunca deve deixar que o aconselhamento seja feito segundo a vontade dos outros. Deve guardar para si o direito de solicitar aconselhamento e só receber conselho para o que ele demandar.

 Deve porém fazer bom e bastante uso do aconselhamento, sabendo perguntar muito e ouvir com paciência, toda a verdade sobre o que for perguntado.

 Capítulo XXIV

 Por que os Príncipes de Itália perderam seus Estados

 Se o Príncipe Novo, tiver o cuidado de estudar atentamente as coisas passadas e o resultado das decisões então tomadas, tirará muito proveito deste seu estudo e aparecerá como tendo grandes conhecimentos e uma grande ascendência, o que lhe garantirá mais confiança e maior tranqüilidade na condução do Estado.

 O Príncipe que chegou de novo, é muito mais vigiado e criticado nas suas ações do que um Príncipe hereditário. Se essas ações aparecem como resultado de reais virtudes, entram mais fundo e mais rapidamente no coração dos homens, podendo atrair mais rapidamente também, a sua amizade e garantindo a sua fidelidade, mesmo sem a antigüidade do sangue.

 Citados os exemplos do Rei de Nápoles e do Duque de Milão, senhores que perderam os seus estados, é apontado nestes um defeito comum, em relação aos feitos de armas. Foram hostilizados pelo povo, porque não souberam  controlar os grandes e poderosos aos quais vieram a sucumbir, apesar de comandarem estados poderosos, capazes de armar exércitos suficientes à sua defesa.

 Esses príncipes não podem acusar a sorte pela perda dos seus domínios, pois eles próprios cavaram a sua ruína, não se precavendo em momentos bonançosos para enfrentar tempos mais adversos. Quando estes chegaram, estavam incapazes de esboçar defesa e, em vez desta escolheram a fuga ignominiosa  como meio de salvação.

 Só serão válidos e frutuosos os meios de defesa que são conduzidos por nós próprios e com o nosso valor.

 Capítulo XXV

 De Quanto pode a Fortuna nas coisas humanas e de que modo se deve resistir-lhe.

 Segundo Maquiavel, “ A Fortuna (ou sorte) pode influenciar metade das nossas ações, mas assim mesmo, nós temos o dever de ser capazes de conduzir a outra metade” .

 

O Poder da boa ou má fortuna é mais forte onde não existir organização, ou onde não houve previsão ou provisão para enfrentá-la.

 Lutando por modificar a sorte e não se deixando influenciar por ela, podem os homens conseguir felicidade e comandar os seus destinos.

 É de melhor aviso ser impetuoso, que prudente em demasia, porque sendo a sorte uma mulher, a única forma de dominá-la é pelo arrebatamento.

 É do conhecimento geral, que a sorte bafeja sempre os que a tentam constantemente e em freqüentes ocasiões, sem se deixarem abater pelas ações mal sucedidas, ou pelas incursões negativas.

 Capítulo XXVI

 Exortação ao Príncipe para livrar a Itália das mãos dos Bárbaros.

 São maus para a Itália os tempos que vivemos, escreve Nicollo Maquiavel ao seu Príncipe.

Mas aquele que, sendo prudente e valoroso, tomasse a seu encargo estabelecer uma nova ordem na nossa terra, teria honras, fama e prosperidade.

 São ainda palavras de Nicollo “ Neste momento em que a Itália está mais escravizada do que estiveram os Hebreus, mais oprimida do que os Persas, mais desunida que os Atenienses, sem chefe, sem ordem, espoliada e invadida, ela roga a Deus que lhe envie alguém que a liberte das atrocidades dos estrangeiros” .

 Com isso ele pretende exortar o seu Príncipe a assumir a grande tarefa de libertar ,unir e salvar a sua Itália, pois segundo ele são tarefas com esse alcance que dão grandeza e reputação a um Príncipe Novo.

 Cita o valor dos homens da sua península, que apenas esperam que alguém valoroso e honrado se prontifique a liderá-los para a grande cruzada que seria a libertação da Itália.

 Aponta a boa vontade do Criador em dar apoio a esse gesto, que contaria também com o apoio da Igreja. Termina com os versos de Petrarca:


 Conclusão: 

Ao ler o livro, discordamos da corrente que ligou o nome do autor à raiz de uma palavra que significa : astúcia, má-fé e velhacaria.

 Em alguns momentos do livro, ele pode até dissertar sobre esses temas, mas sem fazer a sua apologia. Usou-os apenas como grande conhecedor que devia ser da política e do ser humano, bem como das práticas nestes campos, inerentes á época.

Como diplomata, conhecia os meandros e os usos das várias cortes Européias e Italianas, com as quais estivera em contato e, ao escrever para uso do seu príncipe, uma série de missivas onde assuntos relacionados à sobrevivência de um governante eram tratados, é justo pensar que um pouco de prosa sobre astúcia teria que ser usada, pois esta ainda é hoje um ponto de apoio da política e da diplomacia.

 Nos capítulos onde ele aborda as leis, a justiça e o bem estar do povo, parece-nos que se apresenta como um sociólogo interessado em fazer vingar estas práticas, em vez das outras que ele cita, por serem correntes e praticadas, mas que também condena.

 A sua forma de escrever, de abordar os assuntos, de se expressar ou até a franqueza de algumas propostas, devem ser analisadas tendo em conta a época e os seus costumes, bem como as práticas então aplicadas na governação.

Achamos  este livro uma excelente e educativa peça, útil a qualquer um que se interesse pela lei, sua aplicação e bem estar social.

 

 

 

 

 

 

 

 

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