Bacalhau nas Costas da Terra Nova

 No final do século XV, na tentativa de encontrar o caminho marítimo para a Índia por oeste, os portugueses acabaram por se deparar com a Terra Nova, que hoje pertence à província Terra Nova e Labrador, no Canadá. Este seria o ponto de partida para a pesca do bacalhau dos portugueses no Atlântico Norte. Antes de seguirmos nas embarcações portuguesas no final do século XV em direcção à Terra Nova, é conveniente conhecer a pesca de bacalhau no Atlântico Norte na Idade Média. Afinal, foi este o período que antecedeu a descoberta da Terra Nova dos Bacalhaus, como consta em vários mapas e relatos. Huveram duas “revoluções” da pesca na Idade Média. “A primeira apareceu por volta do ano 1000, e a segunda por volta de 1400 e em adiante”.

O bacalhau apenas seco e não salgado e seco (como estamos mais habituados), era um bacalhau pobre e muito ressequido, tal como se ressecava o carapau na Nazaré.

Naveguemos então pelas águas do Atlântico Norte. Por volta do ano 1000, o peixe seco chegava aos centros urbanos da Europa do Norte e vinha de águas muito longínquas. “A revolução da pesca que teve lugar no século XI, por volta de 1050, foi o tempo em que a pesca offshore se tinha tornado um projecto a longa distância. Para esta revolução, foi importante o trabalho do zoo-arqueólogo James Barrett (da Universidade de Cambridge, no Reino Unido) e de outros zoo-arqueólogos, que além da urbanização mencionam o Pequeno Óptimo Climático como causa dessas viagens mais distantes. Esse período de tempo mais quente teria originado o decréscimo da produtividade de peixe no Mar Báltico e no Mar do Norte.

Assim, o comércio de bacalhau seco em larga escala começou no século XI. foram descobertos bacalhaus do oceano Árctico ou Atlântico do século XI na localidade viking de Hedeby (na actual Alemanha). Também do século XII se encontraram bacalhaus do Atlântico na cidade de Eslésvico (também agora na Alemanha).

“O bacalhau constitui um exemplo muito ilustrativo de um comércio de longa distância e largamente documentado que emergiu na Idade Viking. O comércio de longa distância começou na Noruega, na costa Sul do arquipélago de Lofoten (no círculo Polar Árctico), e foi-se depois estendendo para sul.

Para a pesca usavam-se linhas e anzóis. Já o ar frio e seco permitia que o peixe secasse ao vento sem o uso de sal. “O processo simples tornava possível aos agricultores do litoral e pescadores irem pescar e obter lucro ao venderem peixe aos mercadores. Os homens da família concentravam-se na pesca, enquanto as mulheres cuidavam dos animais e das culturas.

O bacalhau era ainda transportado para um “sítio estratégico” na Noruega, a localidade de Bergen, que estava situada entre as zonas de pesca do Norte e os mercados europeus. Foi em Bergen que, em meados do século XIII, os mercadores ganharam o controlo da exportação de bacalhau. No século XIV já dominavam o mercado do Noroeste da Europa, na área do rio Reno e nas terras do Báltico.

Foi também nos finais do século XV que os navegadores portugueses se depararam com esta terra longínqua. “Vários navegadores, todos eles portugueses, navegaram para o Atlântico Noroeste, tentando achar a contracosta da Índia e depararam-se com a Terra Nova dos Bacalhaus”, conta-nos Álvaro Garrido. O sítio vem já mencionado no planisfério de Cantino, de 1502, uma carta náutica que representa os Descobrimentos portugueses. O historiador dá como exemplos de navegadores os irmãos Corte-Real, João Álvaro Fagundes e João Fernandes Lavrador. Foi com este engano à procura do caminho marítimo para a Índia que a pesca do bacalhau começou para os portugueses.

 


Pero Vaz de Caminha deu a sua história da pesca do bacalhau

Contudo, sabe-se muito pouco sobre este episódio: “Não há rasto documental e o que se sabe é indirecto, por registos cartográficos nos mapas e de ilações que se deduzem de rastos documentais mínimos.” Afinal, como diz Álvaro Garrido, esta é uma “saga menor na memória histórica do império português.”

Como as distâncias eram grandes (nalguns casos cerca de 2000 milhas de distância), o bacalhau salgado seco começava por ser conservado a bordo. “Era conservado com sal nos porões dos navios. Esse era o método tradicional da salga, que era já usado no arenque pelos povos do Atlântico Norte. Depois era desidratado ao vento e ao sol: com pouco sol e muito vento”, explica o escritor Álvaro Garrido. Até há bem pouco tempo este ainda era o método, agora a secagem já é feita com máquinas.

E como eram as embarcações que iam até à Terra Nova? “Não há relatos em concreto”, responde-nos. Apenas podemos ter uma ideia do modo como se pescava com gravuras da Grã-Bretanha feitas no século XVI. “Há alguns relatos de capelões que iam a bordo. Seriam o equivalente a caravelas e a baleeiras. E tanto pescavam bacalhau como baleias”, conta. “Eram navios polivalentes de pesca e carga oceânica, que foram perseguidos por corsários de várias paragens, nomeadamente do Norte de África, deitando ao fundo muitos navios de carga com bacalhau.”

Mas em Portugal, o consumo de bacalhau começou muito antes de nós próprios o pescarmos. O bacalhau teria sido introduzido no país trazido pelos povos do Norte na Idade Média. E também existiam tratados de comércio entre Inglaterra e Portugal no século XIV em que Portugal trocava sal por bacalhau.

Aliás, a descoberta do bacalhau como recurso alimentar aconteceu no Norte da Europa, até porque este peixe vive nas águas do Atlântico Noroeste, como salienta Álvaro Garrido. “Mas a prática de um consumo generalizado e a prática de um negócio internacional, que é precocemente global, tem como protagonistas os portugueses.”

Os povos do Norte tinham redes de comércio de bacalhau seco e salgado seco, mas eram fluxos pouco relevantes e menos sistemáticos do que a rede de negócios estabelecida em campanhas de pesca de bacalhau no século XVI por armadores portugueses, bascos e da Grã-Bretanha, explica Álvaro Garrido. “Esta pesca é transoceânica e reúne grandes volumes de capital. O comércio de importação também aumenta porque, entretanto, a pescaria alarga os mercados.” E ainda acrescenta: “Portugal, historicamente, é o maior mercado mundial de bacalhau salgado seco e continua a ser. É um fenómeno de aculturação de um recurso que não habita nas nossas águas.”

E quem consumia bacalhau no final do século XV e início do XVI? “O bacalhau era objecto de um consumo relativamente transversal, embora mais da fidalguia e dos clérigos”, diz o historiador. Por exemplo, podemos encontrar uma referência na peça de Gil Vicente, As Cortes de Júpiter, de 1521. A peça foi apresentada ao rei D. Manuel, a propósito da partida da infanta D. Beatriz, que se iria casar com o duque de Sabóia.

Para pobres ou para ricos?

Há também referência ao bacalhau seco nas listas de compras dos hospitais e das misericórdias portugueses. Além disso, o bacalhau era um recurso alimentar na Quaresma e quando a Igreja indicava que não se podia comer carne. A facilidade da sua conservação possibilitava também que fosse para terras do interior. “Não há prova inequívoca de que o bacalhau fosse um alimento dos pobres, mas há prova de que era um alimento popular e urbano de largo consumo”, explica ainda o historiador.  

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