O
Shogunato e O Sacrifício pela Fé
No
século XVI, graças aos jesuítas portugueses, o cristianismo criou raízes nas
ilhas japonesas. Mas no ,Inverno de 1637, na região
de Shimabara, não muito longe de Nagasaki, no sudeste do Japão, dezenas de
milhares de campesinos rebeldes se refugiam numa fortaleza abandonada e fazem
barricadas sob as exortações de um líder espiritual, Amakusa Shiro. Adolescente
místico e um tanto andrógino, este filho de samurai galvaniza as tropas em nome
de uma espécie de teologia da liberação. “Louvado seja o santíssimo
sacramento”, podemos ler em português sobre suas bandeiras adornadas com dois
anjos venerando o cálice e a hóstia consagrada. Os insurgentes, cristãos na sua
maioria, não tem nada a perder. Uma parte deles são (ronin), samurais
deixados sem mestre pela guerra dos clãs que destruiu o Japão por mais de um
século, e que acabou com o poder total nas mãos dos Tokugawa e o
estabelecimento de um regime militar fundado num estreito controle social. O
novo governador da região não para de imaginar novos impostos sobre os
nascimentos e sobre as mortes, as portas o aquecimento ou mesmo das
prateleiras. Aqueles que não podem pagar são com ordinária crueldade.
O
Japão acabava de ser reunificado, e os dirigentes do país tinham medo deste ser
minada por uma população que obedeceria a Deus em vez do Shogun, o líder civil
e militar. Depois da chegada dos primeiros portugueses em 1543 e em seguida à
missão conduzida por São Francisco Xavier, um dos companheiros do Ignácio de
Loyola, e à concessão de Nagasaki aos jesuítas em 1580, o vento virou.
Certamente o cristianismo conquistou dezenas, ou melhor, centenas de milhares
de adeptos e continua o seu progresso, em parte porque os lideres locais
especulavam com o desenvolvimento do comércio com a Europa. Mas num país muito
estruturado sobre o plano cultural, social e religioso, este novo poder teve
medo de ser prejudicado pelas traições.
E em
1587, o Shogun Toyotomi Hideyoshi se volta bruscamente contra os bateren,
os padres, dos quais decreta a expulsão. Em 1597, 26 pessoas são crucificadas
em Nagasaki voltadas para esse mar que trouxe a influência perniciosa dos nanban,
os “bárbaros do Sul”, como chamavam aos portugueses que vinham de Goa ou de
Macau. Esses primeiros mártires já de um cristianismo globalizado e
secularizado são japoneses, europeus e indianos, jesuítas e franciscanos,
homens e mulheres, sacerdotes ou médicos, catequistas, simples fiéis. Os mais
jovens, Luisa e Antonio, 11 e 13 anos, cantam agonizantes o Laudate pueri
dominum.
Em
1612, o Shogun Tokugawa Ieyasu, fundador da dinastia que governara o país até
mediados do século XIX, proíbe o cristianismo. Em 1615, uma armada rebelde
incluindo numerosos cristãos é derrotada no castelo de Osaka. Em 1622, sempre
em Nagasaki, essa cidade símbolo que os americanos no século XX escolheram como
alvo da bomba atômica, este será o “grande martírio”: 52 pessoas queimadas vivas
ou decapitadas. Entre eles varias crianças de jovem idade.

Os japoneses cristãos que
foram obrigados a pisotear a imagem de Jesus
A
repressão anticristã é acompanhada de um isolacionismo cada vez mais absoluto.
Em 1634, um edito proíbe os japoneses de viajar no exterior
Em
1639, se dá o fechamento absoluto do país que será decretado, com exceção de
uma minúscula feitoria holandesa, colocado na mais estreita vigilância. E que
tal vez preserva a sua independência, quando sabemos que a colonização da Índia
até as Filipinas.
Frente
a sua expansão, o Shogun decretou a expulsão dos padres. É uma repressão
sangrenta desce sobre os fiéis.
E os
rebeldes de Shimabara? Famintos, e bombardeados por um navio holandês (negócios
são negócios), os 37.000 insurgentes são quase todos massacrados. Seus crânios
são empilhados sobre as ruínas. Em Nagasaki, exposta em um pique está à cabeça
de Amazuka Shiro. Permanecerá lá por muito tempo, como uma advertência. Esta
repressão constitui um dos episódios mais sangrentos da história do país – mas
não da época- se o comparamos, por exemplo, aos 20.000 mortos que os exércitos
do Cromwell fizeram em Irlanda mais ou menos no mesmo período. Ela marca
sobretudo o fim do cristianismo como religião visível, pública e ativa, sobre a
cena política, enquanto o martírio contribuiu pra a propagação da fé.
Condenados à clandestinidade os kakure kirishitan (“cristãos ocultos” em
nipo português) esses aldeãos admiráveis, verdadeiros proletários campesinos
cristãos se fundem na paisagem religiosa praticando o budismo de aparências e
um cristianismo de iniciação.
E os
padres de Macau escreveram aqui, as páginas mais belas do Cristianismo, depois
das que já conhecíamos, exibidas nas arenas romanas da Antiguidade.
Talvez
não haja exemplo mais belo de sede de martírio do que o dos portugueses de
Macau, já na Idade Moderna. Não foi o heroísmo praticado por cavaleiros, mas
sim o de um povo cavaleiro, de tal modo o espírito da cavalaria, que é o
espírito da fé, impregnara o povo lusitano. Neste caso, sentem-se as últimas
lufadas do espírito épico da Cavalaria. Depois da expulsão dos estrangeiros do
Japão, houve lá uma terrível perseguição contra os nipônicos católicos. Dois
milhões de mártires deram seu sangue para confessar que só a Igreja Católica é a
verdadeira. Para impedir a continuarão da pregação católica, foi feita uma lei
que condenava à morte qualquer estrangeiro que desembarcasse no Japão.
A
morte por causa da fé não foi um obstáculo, antes foi um incentivo para os
sacerdotes portugueses de Macau, continuassem a partir para as terras do
Mikado, para fazer missão e para lá morrer, se fosse o caso. Tantos partiram,
que o governo luso de Macau teve que fazer decretos proibindo severamente a ida
para o Japão. Mas quem não temia a morte em meio às piores torturas, não ia
temer decretos portugueses. As "fugas” de padres para o martírio no Japão
não diminuíram, nem mesmo colocando-se soldados para guardar os portos. Bons
tempos em que era preciso usar a força militar, para conter o zelo dos padres e
sua sede do martírio. Afinal, o governador português decidiu enviar uma
embaixada ao Japão para entabular negociações. Chegando às terras do Império do
Sol Nascente, todos os membros da embaixada foram mortos, exceto um nativo que
foi enviado de volta, para anunciar que aconteceria o mesmo a quem quer que
desembarcasse no Japão, Ao chegar a notícia do massacre da embaixada em Macau,
todos os sinos repicaram festivamente, porque Portugal pensara enviar uma
embaixada ao Japão, mas Deus a julgara tão digna que a convocara para o Céu.
Por
isso os sinos repicavam festivos: era preciso honrar a entrada triunfal da
embaixada de Portugal no Paraíso.

No
final do século XIX, a Europa redescobre o Japão, as armas americanas do
Comodoro Perry, o forçam a se abrir e liberalizar. É a era Meiji. Na França, os
artistas lançam a moda japonesa. Na Ásia os evangelizadores retornam. Não são
mais portugueses ou espanhóis, mas franceses enviados pelas Missões
Estrangeiras, com as suas barbas longas. O primeiro vigário apostólico, o padre
Bernard Petijean, nativo de Blanzy-sur-Bourbince, na Saône-et-Loire, descobre
cristãos escondidos, esses marranos católicos a quem as estatuas de Kannon, (uma
figura feminista do panteão budista) servem como um revestimento de um culto à
Virgem. Pio IX canoniza coletivamente os mártires esquecidos. Numa França em
plena renovação católica, dramas de sucesso contam a sua história e tem no
destino um púbico edificado. Um século mais tarde, um grande resistente ao
totalitarismo, João Paulo II, canoniza os outros mártires.
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