Portugal no Século XIX

 

Portugal era, no início do século XIX, uma monarquia que ainda vivia nas ideias do “Ancien Regime”. Apesar dessas ideias terem sido completamente postas em causa pela Revolução Francesa de 1789, a qual tinha sido antecedida pela Revolução Americana de 1776.

 As ideias veiculadas por aquela revolução passaram a ser levadas nas pontas das baionetas, daquele que passou a ser o primeiro exército miliciano do mundo, e preocuparam sobremaneira o governo português e a Corte de então. D. Maria I em aliança breve com os espanhóis, enviou uma Divisão Militar de 5000 homens para combater os franceses na Campanha do Rossilhão. Corria o ano de 1793 e  por esta altura ocorreram também variados ataques franceses a possessões ultramarinas portuguesas, nomeadamente na costa de Moçambique e Cabo Verde (ilha Brava), ao passo que a Inglaterra, em guerra com a França, tentou ocupar também vários territórios portugueses com a desculpa de os proteger daquela.

 No início do século XIX, era regente de Portugal aquele que viria a ser aclamado rei, em 1816, o futuro D. João VI, por incapacidade de sua mãe a Rainha D. Maria I. Portugal poderia se considerar como uma média potência, no mundo de então. Na Metrópole havia algumas manufaturas com valor, embora a agricultura fosse deficitária; o exército tinha alguma expressão apesar das deficiências em equipamento e treino e a Marinha alinhava umas dezenas de navios de linha capazes e conseguia cumprir as suas missões fundamentais, que eram proteger a navegação com o Brasil e manter uma presença na Índia. O fosso tecnológico com os países mais avançados era pequeno e os proventos do Brasil, território em franco desenvolvimento, davam para cobrir todas as deficiências. Portugal mantinha presença em cinco continentes: Na Europa, com o Continente e os Arquipélagos dos Açores e Madeira; Na América com o Estado do Brasil, que ocupava só por si, metade da América do Sul; em África, Cabo Verde; a costa da Guiné que incluía Casamança; a Fortaleza de S. João Baptista de Ajudá; Cabinda, o Ambriz e os reinos de Luanda e Benguela, além de S. Tomé e Príncipe; na África Oriental toda a costa que ia de Lourenço Marques até à ilha de Moçambique; na Ásia, Goa, Damão e Diu e Macau; e na Oceânia as ilhas de Timor, Solôr e Flores.

A população portuguesa em todos os territórios não deveria ultrapassar os cinco milhões de habitantes.  Toda esta conjuntura foi fortemente abalada pelas invasões francesas do continente, antecedidas pela Guerra das Laranjas, em 1801, da qual resultou a perda de Olivença, que a Espanha retém ilegalmente até hoje. (uma boa reflexão para todos nós...)

 As invasões francesas foram de extrema gravidade para Portugal.

 No final destas, em 1810 (embora o Exército português continuasse a perseguir os franceses até 1814, tendo chegado a Toulouse), estima-se que 10% da população (cerca de 200.000 pessoas) tenha perecido; a grande parte da indústria, vias de comunicação e infra-estruturas diversas, haviam sido destruídas; a agricultura e o comércio, mal conduzidos ou desarticulados.

 Um panorama desolador que hoje dificilmente  conseguimos  imaginar, mas cujos efeitos se refletiram no país repercutindo nas gerações seguintes.

 


A 1ª invasão tinha provocado a saída da família real e cerca de 10 000 pessoas de elevado estatuto social, para o Rio de Janeiro (e com ela a maior parte da Marinha), onde passou a funcionar o governo português. Para garantir a ajuda britânica, o monarca português teve que abrir os portos brasileiros ao comércio inglês e aceitar o território continental, a Madeira e a Índia, ocupadas por tropas inglesas, numa situação que só terminou definitivamente com a expulsão de Beresford, em 1820.

 A propagação das ideias liberais, cuja disseminação era potenciada pelas lojas maçónicas e a ausência do rei, que demorava em voltar a Lisboa, precipitaram a Revolução Liberal ou vintista de 1820, que obrigou a corte a regressar á Metrópole, precipitou a independência brasileira e está na origem da guerra civil entre liberais e Miguelistas que durou entre 1828 e 1834.

Com a Convenção de Évora Monte neste último ano, terminou a luta fratricida e D. Pedro IV abdicou em sua filha D. Maria a coroa de Portugal, permitindo ao país lançar-se num período de reformas em movimento acelerado de que se destacam a extinção das Ordens Religiosas (que eram donas de cerca de metade do país) e a reforma administrativa de Mouzinho da Silveira.

 A debilidade política, as divisões existentes, o modo atrabiliário em que tudo se foi processando e a contínua debilidade económica e financeira, fez Portugal mergulhar em crises político-sociais sucessivas que vieram a desembocar uma nova guerra civil, em 1847, a Patuleia, que só viria a findar com uma intervenção militar estrangeira, anglo-espanhola!

Em 1851, o Marechal Saldanha experimentado caudilho militar de muitas campanhas e golpes de estado, impôs pela força das armas a sua posição de chefe do governo.

 A essa altura, as forças políticas certamente conscientes da situação a que os desatinos politico-partidários, tinham conduzido o país, entenderam-se de modo a dar alguma estabilidade à nação, tendo-se constituído dois partidos, numa tentativa de imitação do parlamentarismo inglês, com um mais à direita (o Regenerador) e outro mais à esquerda (o Histórico). Eles se alternariam no governo, durante todo o reinado de D. Luís, tendo como principal figura o General Fontes Pereira de Melo. Deu-se assim início ao “Rotativismo”, regime que trouxe alguma paz social e desenvolvimento ao País, sobretudo na agricultura, nas vias de comunicação e transportes e nas infra-estruturas sociais.

 Este modelo porém esgotou-se e, por alturas de 1890, devida a forte crise financeira e agudização de tensões políticas a que não é estranho o aparecimento em força das ideias republicanas catalisadas à volta do ultimatum inglês, o ataque à Monarquia foi-se intensificando e a tentativa do rei D. Carlos de inverter a situação, ao dar posse ao governo ditatorial de João Franco fracassou,  com o assassinato do rei e do príncipe herdeiro, em 1 de Fevereiro de 1908.

 Dois anos depois, em 5 de Outubro de 1910, a desorientação e divisão das forças monárquicas e a falta efetiva de liderança, fizeram soçobrar a antiga Monarquia portuguesa, de quase 800 anos, em menos de 24 horas, às mãos de cerca de 500 civis armados, meia dúzia de canhões e um subalterno de administração naval, depois do chefe da revolta, Almirante Reis se ter suicidado julgando a partida perdida! As Forças Armadas, minadas por dentro, foram meras espectadoras em vez de inter­vir.

A República foi proclamada em Lisboa e retransmitida por telégrafo para o resto do país.

Com este pano de fundo, ao  qual se juntaram os eventos ocorridos no mundo que também afetaram Portugal nesse período, analisaremos as principais preocupações e orientações político-estratégicas relativamente ao Ultramar e especialmente à África, no mesmo período.

Enquanto durou o comércio do Golfo da Guiné e o reino cristão do Congo, a África tinha sido apenas utilizada como ponto de apoio para as armadas que se dirigiam à Índia. As praças do Norte de África primeiro, o Oriente, e depois o Brasil, esgotaram sucessivamente as capacidades portuguesas. No princípio do século XIX o Brasil era a joia da Coroa. E não apenas isso, era um território tão desenvolvido como a Metrópole e incomensuravelmente superior em tamanho e riquezas. A obra realizada pelos portugueses no Brasil tem sido muito subestimada!... (outra reflexão...)

Com a independência do Brasil o reino foi muito afetado e algo desorientado, tendo passado por aquilo  que se pode chamar “período de reflexão estratégica’. Em simultâneo verificou-se a crescente cobiça europeia sobre a África, nomeadamente de franceses e ingleses, que a pretexto da repressão ao tráfico de escravos (a Inglaterra tinha abolido o tráfico em 1807 e pretendia que todos os países a seguissem), passaram a fazer recomendações constantes. Tinha chegado o momento dos portugueses se voltarem para a África. Mas as guerras civis, o caos político, o marasmo das FAs, a questão religiosa e a crise financeira, demoraram continuamente o arranque de qualquer política efetiva. Além disso, não era liquida a retribuição de lucros face aos empreendi­mentos, e o interesse português no passado ter visado prioritariamente, integrar a população indígena na comunidade cristã.

 

Foi o preâmbulo da diretiva sobre o tráfico de escravos, apresentado pelo Marquês de Sá da Bandeira, em 1836, que equacionou devidamente o problema. Este decreto prescrevia o arranque para África de modo a se construírem ali novos Brasis, visando colmatar a perda das  terras de Vera Cruz e desenvolver a economia e a organização social das possessões portuguesas. O decreto, com a data de 10 de Dezembro, proibia o tráfico de escravos em todos os territórios portugueses a Sul do Equador. No entanto a totalidade do tráfico só veio a ser abolida em todo o mundo português, em 1869. Esta questão do fim da escravatura foi importante para Portugal durante quase todo o século XIX. Muito pressionado pelo governo inglês para não só abolir todo o tráfico, mas também para ajudar na sua repressão, o governo de Lisboa foi tentando escalonar no tempo e no espaço, as ações a desenvolver de modo a não criar rupturas e a não prejudicar a economia, visando, sem embargo do interesse português, que após a independência brasileira, deixasse de haver fluxo de escravos para o Brasil a partir de qualquer território nacional.

No fim da Guerra Civil, em 1834, as possessões portuguesas além-mar eram: em Angola dois reinos, o de Angola que se estendia do rio Ambriz até ao Cuanza; e o reino de Benguela que ia do Cuanza ao Cabo Negro. No sentido leste/oeste não passaria das 100 léguas a influência portuguesa para o interior onde haveria cerca de 370 sobas subordinados à autoridade portuguesa. A população rondava os 400 000 habitantes e apenas havia três câmaras municipais: Luanda, Benguela e Massangano. Para norte, de Ambriz até Cabinda havia territórios sobre os quais Portugal tinha direitos históricos, mas não exercia ocupação efetiva. Apenas dois ou três navios nacionais demandavam anualmente os portos de Angola. A partir de 1844 abriram-se os portos ao comércio internacional e fomentou-se a colonização europeia cujas 2 000 almas existentes se concentravam quase exclusivamente em Luanda.

Na Costa Oriental de África a ocupação portuguesa era ainda mais diminuta do que em Angola.

 



Desde 1815 que a capital se situava na ilha de Moçambique. Em 1834 os limites da presença portuguesa estendiam-se desde a Baía de Lourenço Marques até à Baía do Tungue. Antes tinha-se atingido o Cabo Delgado, mas a faixa de costa entre estes dois pontos tinha sido ocupada pelo Iman de Mascate. Para o interior a influência portuguesa era muito limitada. O ponto mais afastado era Tete e, em 1836, abandonou-se o posto do Zumbo, alvo de ataques. Eram, aliás, frequentes os ataques às povoações.

 A população de toda esta vasta área era de cerca de 300 000 habitantes, em 1850. A população europeia, junta com a islamizada e hindus não ultrapassaria as 2 000 almas. As forças militares totalizavam cerca de 1 000 homens. Em termos religiosos, havia 11 paróquias. Era muito pouco.

 Na Guiné, a vida portuguesa era dominada (estamos no reinado de D. Maria II) pela figura do governador Honório Pereira Barreto, que tomou posse de Bissau e Bolama. E havia Cabo Verde. Na Índia as reformas de Mouzinho da Silveira acabaram com a figura do Vice-rei, ficando a de Prefeito. A clivagem entre miguelistas e liberais fez-se sentir até 1845, durante o governo do Conselheiro José Ferreira Pestana, tendo este tentado desenvolver a agricultura. Pangim foi elevada a cidade, em 1843, e criadas, em 1851 a Escola Médico-Cirúrgica de Goa e a Companhia Comercial de Goa.

 Macau e Timor estavam dependentes do Estado da Índia. Tal situação modificou-se em 1844 com a criação da província de Macau, Solor e Timor, ficando o governador em Macau. Em 1849 o governador Ferreira do Amaral foi assassinado e houve graves tumultos. Uma tentativa de bombardeamento da cidade foi repelida por um ataque notável, conduzido pelo Tenente Nicolau de Mesquita, que tomou o Forte de Passaleão.

Timor era o território mais longínquo e abandonado pela mãe Pátria. Em 1840 contavam-se apenas oito missionários que, apesar de tudo, tinham um papel muito importante no desvio do comércio com os holandeses a favor de Portugal. Arrastavam-se questões de fronteiras com a Holanda. Para resolver estes problemas foi nomeado governador Lopes de Lima, mas a falta de dinheiro fez este exorbitar as suas funções e fazer um acordo com os holandeses pelo qual lhes vendeu a ilha das Flores e o arquipélago de Solor. Lopes de Lima foi preso, mas os territórios perderam-se para sempre.


 Portugal sempre deu oportunidades a todos os negros que se mostraram capazes, e grandes nomes foram preponderantes em todos os ramos da Forças Armadas.

A extinção das Ordens Religiosas em 1834, teve graves consequências no Ultramar, tendo todas as missões sido abandonadas à sua sorte pois a ação destas junto das populações era insubstituível.

 O Padroado do Oriente sofreu gravemente. Tentou-se remediar a situação no final do reinado de D. Maria II: criando um seminário em Luanda, em 1853, e já anteriormente havia sido criado um outro, no Bombarral que se destinava a formar religiosos para a China. Em 1855, já no reinado de D. Pedro V, o colégio de Cernache do Bonjardim ganhou relevo ao formar cerca de 200 sacerdotes para o serviço de além-mar. A sua coroa de glória foi a missão de S. Salvador do Congo, iniciada em 1881 e que salvou a nossa soberania naquelas paragens, após a Conferência de Berlim de 1884. Outras congregações se salientaram conforme ia crescendo o interesse por África. Este novo impulso evangelizador veio porém a ser estancado, por via das perseguições religiosas que ocorreram após o advento da República.

 

Entretanto as principais potências europeias iam-se estabelecendo em África a começar pelo Norte, árabe-berbere. Os franceses tentaram ocupar a Tunísia, a Argélia e parte de Marrocos, dividindo este último território com a Espanha, que se foi estendendo para sul até ao Sahara Ocidental. A Grã-Bretanha ocupou o Egipto, tendo em vista a ligação através do Suez com a Índia. A Itália depois de unida lançou os seus apetites para a Tripolitânia, actual Líbia e, mais tarde, para a Abissínia. Como se sabe Portugal tinha deixado de ter interesses diretos em Marrocos, desde o abandono de Mazagão, em 1769.

A partir do início do século a África Negra deixou de ser olhada apenas como reservatório de escravos para passar a local apetecível de ocupação. Concorreu para isto, a curiosidade científica, a procura crescente de produtos tropicais, a necessidade de matérias-primas e a cativação de novos mercados, que a Revolução Industrial não só potenciava como exigia. A perda de controle dos territórios que dispunham na América do Norte, por parte da França e da Inglaterra encaminhou, naturalmente, estes países para outras paragens.

 Os ingleses, por exemplo, estabeleceram-se no Cabo, em 1815.

À medida que se entrava na segunda metade do século o interesse por África cresceu desmesuradamente. Constatava-se a ignorância sobre tão vasto território, sobretudo o seu interior. E do interesse dos governos passou-se à opinião pública e desenvolveu-se a Geografia. Deste modo começaram a surgir um pouco por todo o lado “Sociedades de Geografia”, o que no caso português se verificou a 11 de Novembro de 1875. Entretanto tinha sido fundada a Associação Internacional Africana pelo rei Leopoldo da Bélgica, em 1876, a fim de explorar cientificamente a África, estabelecer vias de comu­nicação e abolir a escravatura. Mas passado pouco tempo, cada nação desenvolveu a sua atividade sem estar subordinada à orientação central desta associação, à excepção da Bélgica.

As viagens de exploração sucederam-se e toda esta atividade veio a culminar na Conferência de Berlim de 1884/5, onde se fez a partilha do continente e se desencadeou uma autentica corrida a África.

 Sobre forte pressão dos “lobbies” industriais alemães, Bismark acabou por lançar os seus olhos sobre o continente africano e, em apenas três ou quatro anos, formou-se o império alemão em África que englobava, Angra Pequena, Camarões, Togo e a África Oriental Alemã.

Portugal, num ambiente que lhe era hostil, conseguiu apenas duas vitórias:

- impediu-se o estabelecimento da Associação Internacional Africana na margem direita do Zaire;

- foi retirada do ato geral, a referência inglesa à internacionalização do Zambeze.

As decisões de maior peso que afetaram diretamente Portugal foram a declaração sobre a liberdade de culto e a ocupação efetiva dos territórios. Sabia-se que só as grandes potências estavam em condições de fazer isto e tratava-se também de impor um “modus vivendi” aos africanos. Portugal não estava capacitado na altura para lidar com estas exigências e as outras potências sabiam disso. Portugal era o país que mais tinha a perder, percebeu o aviso e encetou numerosas ações para tornar mais efetiva a sua presença e salvaguardar os seus interesses. Os “ventos da História”, algo ciclónicos da época impunham-no. A intervenção portuguesa até à Conferência de Berlim foi frágil.

Desde sempre, os meios humanos e financeiros disponíveis para fazer face à gesta descobridora e colonizadora foram inferiores aos necessários.

 


Mas a qualidade do armamento, o valor das tropas e dos comandos, a unidade moral e a coesão nacional, conseguiram ultrapassar as maiores dificuldades e manter um património único na História da Humanidade. Mas nada podia resistir à fratura violenta da família portuguesa. A situação no Ultramar era confrangedora. E se, no Oriente, as nossas posições, por modestas, não despertavam grandes cobiças, já a situação em África era de molde a suscitar os maiores ataques. Foi isso que veio a suceder. E se na Índia se tinha enraizado uma casta aristocrática baseada na rede de famílias portu­guesas estabelecidas, as possessões portuguesas de África foram quase apenas ponto de passagem ou lugar de expiação de conde­nados durante três séculos e meio. As estruturas sociais eram, assim, muito débeis.

Foi, portanto, um povo desmoralizado e um governo hesitante e fraco, que em meados do século XIX teve de passar a olhar para a África, por um lado para encontrar alternativas à perda do Brasil; por outro, para fazer face às potências que nos queriam esbulhar. Nunca se conseguiu pôr de pé um plano global de atuação e as políticas encetadas foram quase sempre reativas e nunca por antecipação.

Conseguiu-se apesar de tudo, atuar positivamente na crise do Ambriz (para onde houve a coragem de enviar forças militares), na ilha de Bolama e na Baía de Lourenço Marques. Noutras ocasiões, Portugal foi privado do recurso a arbitragens através de brutais ultimatos.

Mesmo assim, e recuando um pouco no tempo, em 1809 tropas portu­guesas ocuparam a Guiana Francesa. Após os franceses terem sido expulsos de Portugal, Beresford ficou como governador da Metrópole, que em relação ao Brasil passou a estar mais na posição de “colónia”. A primeira revolta liberal, de 1817, destinada a expulsar o domínio inglês, falhou. Gomes Freire foi executado e houve forte repressão. Mas, em 24 de Agosto de 1820, nova revolução, no Porto, teve sucesso. Encabeçava-a Manuel Fernandes Tomás, seu ideólogo e considerado o pai do liberalismo português. Em 1821 rebentaram motins no Brasil de apoio à revolução na Metrópole. Foi então que o rei, começou a reagir. Mas o cerne da revolução tinha sido  a perda do controle do comércio brasileiro, muito afetado pelos tratados de 1808 e 1810 com a Inglaterra, e pelo afastamento do Brasil relativamente ao seu estatuto territorial. O rei regressou em 3 de Julho de 1821. A independência brasileira estava já em marcha. O príncipe herdeiro foi mandado regressar e desobedeceu, tendo a 7 de Setembro de 1822 dado o celebre grito de Ipiranga.


 

E Portugal precisou pensar em si próprio e avançou em muitos aspetos. Houve modernização da Agricultura através de incentivos, reduções de impostos e obrigações.  Distribuição de terra por maior número de proprietários, pela divisão da terra dos mosteiros e nobres. Acabou o direito de morgadio que se havia difundido como um forma de contrariar o empobrecimento das famílias devido às sucessivas partilhas, servindo, assim, para manter o seu ramo principal com o suficiente estatuto económico-social. A instituição de morgadios estava normalmente associada à instituição de capelas e ao cumprimento dos chamados “bens de alma” definidos pelo instituidor, sendo esta também, uma razão para a sua difusão. Existiram, no entanto, outros tipos de morgadio associados a determinadas profissões, nomeadamente na distribuição do correio e a algumas profissões mecânicas ou artesanais. Nem sempre o morgadio esteve associado a bens imóveis.

O filho primogénito recebia o nome do pai completo, seguido da palavra Filho, Neto, etc Os outros filhos(as) tinham somente o nome e o sobrenome do pai: a família da mãe (esposa) não existia. O intuito era manter a árvore genealógica.

Uma das razões que levou à sua extinção foi o empobrecimento dos filhos não primogénitos.

Os morgadios foram extintos em Portugal no reinado de D. Luís I por Carta de Lei de 19 de Maio de 1863, subsistindo no entanto o vínculo da Casa de Bragança, o qual se destinava ao herdeiro da Coroa. Este último morgadio viria a perdurar até 1910. Os baldios foram divididos e as Áreas cultivadas aumentaram.

Foram utilizadas novas técnicas de cultivo, com- sementes selecionadas, adubos, alternância de culturas, novas alfaias e máquinas agrícolas feitas em ferro: semeadoras, charruas, debulhadoras e

mecanização da agricultura em geral, maiores produções com menor número de trabalhadores, generalização do cultivo do milho, da batata e do arroz

Aumentou a extração mineira. Os governos liberais concederam licenças de exploração de minas a empresas particulares nacionais e estrangeiras. O cobre o ferro e o carvão eram os minerais mais procurados. Surgiram novas povoações Aplicação do carvão Combustível, Produção de gás, Combustível para fogões de sala para os altos fornos e para as caldeiras ou cozinha. Iluminação pública fornos das fundições e das máquinas a vapor

 

Surgiram duas zonas industriais: Porto/Braga/Guimarães; Remodelados os Portos, as estradas, os caminhos de ferro • Lisboa/Barreiro/Setúbal

Aplicação da máquina a vapor aos transportes. A primeira viagem de comboio realizou-se em 1856 entre Lisboa e Carregado. A via férrea foi progressivamente se alastrando pelo país, existindo já no final do século cerca de 2000 km de caminho de ferro. •Em 1887, iniciou-se a ligação direta Paris-Madrid-Lisboa


Modernização da Indústria.  A produção artesanal predominou ainda em Portugal, durante o séc. XIX, mas a máquina a vapor, introduzida na indústria antes de 1835, veio revolucionar todo o processo de transformação das matérias primas e as características da produção industrial, com menos tempo para maior quantidade (produção em série).Menor número de trabalhadores (Operários). Fonte de energia utilizada: carvão de baixo custo.

A 11 de janeiro de 1890, o Ultimato consistiu num telegrama enviado ao governo português pelas autoridades inglesas, A missiva exigia a retirada imediata das forças militares portuguesas mobilizadas nos territórios entre Angola e Moçambique. Esses territórios correspondem aos atuais Zimbabwe e Malawi. Caso a exigência não fosse acarretada por Portugal, a Inglaterra avançaria com uma intervenção militar.

Na segunda metade do século XIX, a Europa conheceu um elevado crescimento económico. Esta situação exigiria novos mercados e novas fontes de matéria-prima. Daí o forte expansionismo europeu em África durante este período.

A Conferência de Berlim (1884-85) criara um novo ordenamento jurídico baseado na ocupação efetiva; ou seja, as pretensões portuguesas baseadas no direito histórico só se tornariam válidas se Portugal se apoiasse numa autoridade que fizesse respeitar os direitos adquiridos e a liberdade de comércio e trânsito.

Para Portugal, as colónias africanas tinham, sob o ponto de vista económico, um papel quase irrelevante. Porém, convinha salvaguardar os direitos históricos e Portugal. tinha pretensões a criar um novo Brasil, um autêntico império colonial africano, e esta era a sua última oportunidade para o conseguir. Multiplicam-se então as expedições científicas ao continente africano e redobram-se os esforços diplomáticos.

Assim, em 1886, Portugal dá a conhecer as suas pretensões coloniais sob a forma do "Mapa cor-de-rosa"; tratava-se de um projeto de ligação da costa angolana à costa moçambicana. O governo português dá início a várias tentativas de ocupação efetiva, numa disputa colonial com a Inglaterra, nomeadamente com o plano de Cecil Rhodes, que pretendia ligar o Cabo ao Cairo, sempre por solo britânico. A uma dessas tentativas a Inglaterra responde com o Ultimato.

A notícia do mesmo e o posterior acatamento por parte das autoridades portuguesas provocariam em todo o reino uma gigantesca onda de indignação popular. Este sentimento é habilmente explorado pelas hostes republicanas; prova disso é a tentativa de derrube da monarquia e instauração da república um ano depois, no Porto, na revolta de 31 de janeiro de 1891.

Em termos estritamente coloniais, o ultimato não teve consequências muito negativas, pois, se é um facto que Portugal foi obrigado a desistir do "Mapa cor-de-rosa", mas não é menos verdade que o tratado assinado em 1891 confere a Portugal a soberania sobre extensos territórios, alguns dos quais até então nunca reivindicados.

 


Além dos meios de transporte, desenvolveram-se outras formas de comunicação, vulgarizou-se o gosto pela leitura de jornais diários, o Telefone, Bilhete postal, Selo postal adesivo, o Telégrafo.

 Portugal tinha uma nova face, mas não era mais o mesmo!

 

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