Os Judeus em Portugal e Brasil
Perguntar quando os Judeus chegaram~ao território português é uma questão sem resposta adequada. As crónicas judaicas recordam o cativeiro da Babilónia como o marco da sua presença na Hispânia. No entanto, o momento certo é-nos desconhecido. Sabemos apenas que chegaram aqui numa das peregrinações das suas múltiplas diásporas. Esta a que me refiro teve lugar na conquista de Jerusalém e na destruição do Segundo Templo por Tito, no ano 70 d.C., e no arrasamento da cidade e proibição de nela os Judeus habitarem com Adriano em 132 d.C., após o esmagamento da revolta de Bar Kokba, revolta fortemente marcada pela crença na vinda do Messias dos Judeus. Jerusalém transformara-se me Aelia Capitolina e o seu território passava a estar vedado à presença de Judeus.
Foi
por esta altura que o seu povo se dispersou pelas margens mais longínquas do
mar Mediterrânico, tendo chegado à Península Ibérica, a “Sefarad”, onde
encontramos marcas da sua presença no Levante peninsular desde os séculos
II-III. Por isso, os Judeus peninsulares são designados Judeus Sefarditas, em
oposição aos Judeus Askhenazes que vivem na Europa central.
A
sua presença no território que viria a ser Portugal está comprovada pelas duas
lápides encontradas no Algarve, perto de Lagos, e datadas do século VI, o que
não é de estranhar se pensarmos que, por esta altura, uma parte do sul da
Península se encontrava nas mãos dos Bizantinos. A referência a mercadores
“sírios” e “judeus” aparece na documentação escrita. A unificação feita pelos
Visigodos e, mais tarde, pelos Muçulmanos fê-los dispersar pelo território,
sobretudo a Sul do Douro. De facto, no que respeita a Portugal,
é no
território de Coimbra que encontramos as mais antigas referências escritas à
sua presença. Datam dos séculos VIII-IX. No entanto, em Mértola, os arqueólogos
encontraram uma lápide com a menorah, o candelabro de sete braços, que pode ser
atribuída a uma sepultura de algum seguidor de Moisés. Porém, a sua escrita
latina e o facto de a lápide se encontrar truncada na identificação do morto,
não nos permite ter certezas. Neste caso, a presença dos judeus recuaria ao
século V.
As
raízes dos judeus em Portugal são portanto muito anteriores à formação da
nacionalidade. Quando D. Afonso Henriques obteve o reconhecimento do seu reino
independente, em 1143, já viviam judeus na Península Ibérica há, pelo menos, um
milénio. Os judeus diferenciavam-se dos outros povos por se considerarem sempre
uma nação no exílio, cujo anelo milenário era o retorno à sua Terra, sem
ambições territoriais onde quer que encontravam asilo. Só contribuindo para a
prosperidade dos seus anfitriões podiam assegurar o bom acolhimento. Desde o
fim do Império romano que uma minoria judaica existia no território que depois
veio a ser Portugal.
Aquando
da fundação da nacionalidade, em 1143, esta minoria já se encontrava
disseminada em algumas localidades importantes como Santarém que possuía a mais
antiga sinagoga nacional.
A população judaica aumentava, favorecida pela necessidade que os primeiros reis (século XII) sentiam de povoar o território que ia sendo conquistado aos mouros.
Em
todos os locais em que o número de judeus superava a dezena, era criada uma
comuna ou aljama cujo centro organizacional era a sinagoga. O seu sino chamava
os fiéis não só à oração como também para lhes fornecer qualquer informação
vinda do rei ou qualquer decisão tomada pelo rabi-mor. A sinagoga era a sede do
governo da comuna.
Nos
séculos XI e XII há registo de comunidades judaicas em todo o Paísl. Vivem,
muitas vezes, fechados socialmente sobre si mesmas, mas elementos chave nas
cortes dos reis portugueses. Os mais ricos e com maior formação são gestores,
banqueiros ou médicos enquanto outros são comerciantes ou prestadores de serviços.
Desde
a primeira dinastia que existe algum respeito entre as diversas comunidades
religiosas, apesar das pressões do papa e de alguma nobreza que desde cedo
defenderam a descriminação do judeus. Ao contrário de outros reinos cristãos
que aplicam as directivas de Roma, vários monarcas portugueses preferem não
impor a utilização de vestuário identificativo, como chapéus amarelos ou marcas
hexagonais e avermelhadas presas ao vestuário.
Já
no século XIII, D. Afonso II legisla (Ordenações Afonsinas) as relações entre
cristãos e judeus pois estas começavam a criar dificuldades à minoria. Quer
isto dizer que: os judeus não podiam ter serviçais cristãos sob pena de perda
de património; qualquer judeu converso ao cristianismo que retornasse à
religião original podia ser condenado à morte; não podiam os judeus ocupar
cargos oficiais de modo a que os cristãos não se sentissem prejudicados.
Na
época do Rei D. Dinis cada comuna tinha uma ou mais judiarias. Neste tempo, o
rabi-mor tinha delegado seus, chamados ouvidores, nos principais centros
judaicos do pais: Porto (Região de Entre Douro e Minho); Torre de Moncorvo
(Trás-os-Montes); Viseu (Beira); Covilhã (Beira/Serra da Estrela); Santarém
(Estremadura); Évora (Alentejo) e Faro (Algarve). Estes ouvidores exerciam
verdadeira jurisdição sobre todas as comunidades judaicas nacionais.
A
sinagoga era um local tão importante do ponto de vista religioso (como era a
igreja para os cristãos) quanto civil; era lugar de assembleia e reunião dos
membros da comuna.
O
crescimento do comércio no Portugal da Idade Média deve-se muito à actividade
dos judeus.
Já
as cartas de foral o registam, casos de Évora (1166), Covilhã (1186) e Pinhel
(1200).
Este
tipo de actividade económica promovia financeiramente parte da população
hebraica, facto que permitia invejas e queixas, como por exemplo aquando da
cobrança de juros no empréstimo de dinheiro ou no preço de arrendamento. Em
Castelo Rodrigo, nos planaltos a norte da Serra da Estrela em 1321 o concelho
se queixava ao rei D. Dinis dizendo que “os judeus emprestavam dinheiro a tais
juros que arruinavam os moradores da vila e das aldeias vizinhas”.
Na
agricultura, o cultivo da videira e da oliveira e por conseguinte, a produção
de vinho e azeite em adegas e lagares era muito importante, por exemplo, nas
comunidades da Serra da Estrela.
Vinda
dos Judeus Espanhóis
A
população judaica foi sempre crescendo ao longo da Idade Média. Se em 1400
existiram em Portugal cerca de 30 comunidades e alguns milhares de famílias, na
data da chegada de Colombo à América haveria mais de 100 judiarias e dezenas de
milhares de habitantes.
As
razões do aumento da população são as seguintes:
-a
quase ausência de levantamentos antijudaicos em Portugal;
-o
crescimento dos movimentos contra os judeus em Espanha (Navarra, Castela e a
Aragão) desde meados do século XIV;
-o
estabelecimento da Inquisição e a expulsão dos judeus da Andaluzia (Espanha)
nos primeiros anos de reinado dos reis católicos;
-o
início do processo dos descobrimentos portugueses com a abertura de novas rotas
marítimas e comerciais.
No
total viveriam em Portugal cerca 30.000 judeus – 3% da população. Em 1492, ano
da descoberta da América, os reis católicos promulgam o édito de expulsão dos
judeus de Espanha.
Precisamente,
também no ano da unificação final de todo o território desse país (com a etapa
final da reconquista cristã – a tomada de Granada), se inicia verdadeiramente a
Diáspora de Sefaradi.
D.
João II acolhe muitos desses judeus, cujo total superaria as 120.000 pessoas.
Outros utilizaram Portugal como local de passagem, movimento que viria a
repetir-se durante a segunda guerra
mundial, quando Portugal manteve na Curia e nas Caldas da Rainha, colónias
judaicas que, fugindo da Europa aguardavam a sua oportunidade de seguir para os
países que lhes dariam asilo.

Com a ascensão de Dom Manuel I ao trono português, em 1495, os castelhanos escravizados foram libertados. Todavia, o casamento anunciado do rei com a princesa Isabel de Espanha colocou os judeus novamente em clima de tensão. Isto porque o contrato de casamento incluía uma cláusula que exigia a expulsão dos hereges (mouros e judeus) do território português. O rei tentou fazer com que a princesa reconsiderasse (já que precisava dos capitais e do conhecimento técnico dos judeus para o seu projeto de desenvolvimento de Portugal), mas em vão. Em 5 de Dezembro de 1496, Dom Manuel assinou o decreto de expulsão dos hereges, concedendo-lhes prazo até 31 de Outubro de 1497 para que deixassem o país. Aos judeus, o rei permitiu que optassem pela conversão ou desterro, esperando assim que muitos se batizassem, ainda que apenas pro forma. Os judeus, no entanto, não se deixaram convencer e a maioria optou por abandonar o país. O rei, ao ver cair por terra a sua estratégia, mandou fechar todos os portos de Portugal — menos o porto de Lisboa — para impedir a fuga.
Foi
então que no porto de Lisboa se concentraram cerca de 20 mil judeus, esperando
transporte para abandonar o território português. Em abril de 1497, o rei
mandou sequestrar as crianças judias menores de 14 anos, para serem criadas por
famílias cristãs, o que foi feito com grande violência. Em outubro de 1497, os
que ainda resistiram à conversão foram arrastados à pia batismal pelo povo
incitado por clérigos fanáticos e com a complacência das forças da ordem.
Foi
desses batismos em massa e à força que surgiram os marranos, ou cripto-judeus,
que praticavam o judaísmo em segredo embora publicamente professassem a fé
católica. Os "cristãos novos" nunca foram realmente bem aceites pela população
"cristã velha", que desconfiava da sinceridade da fé dos conversos.
Essa desconfiança evoluiu para a violência explícita em 1506, quando ocorreu o
Pogrom de Lisboa. A peste grassava na cidade desde janeiro, fazendo dezenas de
vítimas por dia. Em abril, mais uma vez insuflados por clérigos fanáticos, que
culpavam os "cristãos novos" pela calamidade, o populacho lisboeta
investiu contra eles, matando mais de dois mil deles, entre homens, mulheres e
crianças.
A
nova diáspora
Para
os judeus portugueses, o Pogrom de Lisboa foi a gota d'água. Iniciava-se nova
diáspora judaica, tendo alguns rumado para o norte da Europa, onde fundaram
comunidades nos Países Baixos e Alemanha. Outros dirigiram-se para o sul da
França (Bordéus, Biarritz, Tartas etc.), e até mesmo para a Inglaterra. Alguns
judeus preferiram regressar ao Oriente Médio, tendo sido bem recebidos pelos
turcos otomanos.
Os
judeus portugueses também chegaram com os holandeses na Capitania
luso-brasileira de Nova Lusitânia, Pernambuco, e consecutivamente a toda a
região setentrional do Nordeste brasileiro, outrora conquistada aos portugueses
pela Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, entre os anos de 1630 a 1654,
onde fundaram no Recife, capital da Nova Holanda, a primeira sinagoga das
Américas, a Sinagoga Kahal Zur Israel, sob a direção do grande Hakham Isaac
Aboab da Fonseca, que foi autor dos primeiros textos literários e religiosos
escritos em língua hebraica nas Américas. Com a reconquista portuguesa do
Nordeste setentrional do Brasil, e a proibição de praticar o judaísmo, a
comunidade dispersou-se, sendo que alguns voltaram para Amesterdão, outros
migraram para outras colónias holandesas nas Américas do Sul, Central e do
Norte e uma parcela permaneceu, refugiando-se nos sertões, interior do Nordeste
Brasileiro onde se converteu em cripto-judeus.
Em
Nova Iorque, que foi colónia holandesa com o nome de Nova Amesterdão, chegou do
Recife um grupo de 23 judeus em Setembro de 1654, onde fundou a primeira
comunidade judaica dessa cidade.
A presença judaica no continente americano data de um século e meio antes da chegada da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais ao Nordeste brasileiro, pois os judeus convertidos (cristãos-novos) fizeram parte da expedição portuguesa que, sob o comando do capitão Pedro Álvares Cabral, descobriu o Brasil em 22 de Abril de 1500.
Na Segunda Guerra Mundial
Com
a tomada dos Países Baixos e da França pelos nazis em 1940, milhares de judeus
procuraram refúgio em Portugal (que se manteve neutro durante o conflito).
Estima-se que entre junho de 1940 e maio de 1941, 40 mil judeus tenham passado
pelo país. Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus concedeu 30
mil vistos de entrada em Portugal (cerca de 10 mil a judeus) a refugiados de
todas as nacionalidades que desejavam fugir da França em 1940.
Este
grande fluxo de refugiados havia sido precedido por outro menor, a partir de
1933, quando a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha fez com que muitos
judeus e adversários do nazismo, temendo por suas vidas no crescente clima de
antissemitismo, deixassem o país.
O
Governo português, então sob a liderança de Oliveira Salazar, temendo
represálias do Terceiro Reich, começou a partir de 1941 a impor restrições
crescentes à entrada de judeus, particularmente no tocante à concessão de
vistos.
A
partir de 1942, no auge do conflito e da perseguição aos judeus, o governo
decretou a internação em zonas específicas (Caldas da Rainha, Ericeira,
Figueira da Foz e Curia) de todos os estrangeiros que houvessem entrado
clandestinamente no país. A circulação destes estrangeiros para fora destas
zonas de internamento era restrita, e só podia ser efetuada com permissão da
polícia política portuguesa, a PIDE.
Apesar
desta aparente restrição, em 1942 e 1943 milhares de judeus conseguiram ainda
entrar em Portugal e dos portos de Lisboa, Porto e Setúbal partir para o Brasil
e para os Estados Unidos. A partir de 1943 já poucos eram os judeus que
conseguiam escapar quer da Alemanha quer da França de Vichy.
Jorge
Sampaio, de ascendência judaica chegou a ser Presidente da República Portuguesa
ainda não há muito tempo. Curiosamente, a reconciliação de Portugal com os
judeus expulsos e perseguidos depois do édito de 1496 assinado por D. Manuel I
foi feita não por Sampaio (de mãe e avó judias), mas pelo seu antecessor, Mário
Soares, que em 1989 pediu perdão pelas atrocidades da Inquisição, a qual,
sublinhe-se, só foi extinta em 1821, já Abraão, Elias e Salomão Bensaúde (dois
irmãos e um primo) viviam por cá.
Um outro Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, faz parte da meia centena de grandes figuras políticas que se juntam em Jerusalém para, em vésperas dos 75 anos da libertação de Auschwitz, recordarem o Holocausto e denunciar o antissemitismo. Estão lá o russo Vladimir Putin, o francês Emmanuel Macron, também Felipe VI de Espanha e o príncipe Carlos de Inglaterra, ainda Mike Pence, o vice-presidente de Donald Trump. E, claro, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, que, tal como a chanceler Angela Merkel, tem sido digno representante de uma tradição democrática de assunção das responsabilidades do nazismo e de denúncia de quaisquer revivalismos dessa doutrina, seja em casa seja no estrangeiro. Merkel, que há um mês visitou o campo de extermínio de Auschwitz pela primeira vez, não teve dúvidas em relembrar as culpas dos alemães nem de assumir a vergonha pelo ali sucedido.
Morreram seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Não foram as únicas vítimas, mas foram, enquanto povo, o alvo eleito por Adolf Hitler. Um dia, ao ler a biografia que Edgar Morin escreveu sobre o seu pai Vidal, percebi a diferença de nível entre a Solução Final e os progroms e perseguições que durante séculos os judeus sofreram na Europa: Vidal Nahoum, sefardita nascido em Salonica nos tempos do Império Otomano e imigrante em França, julgou que bastava pendurar um crucifixo na parede da sala para se livrar do ódio aos judeus. Desta vez, os perseguidores visavam todo o chamado Povo Eleito, praticasse ou não a religião. Eram muito mais científicos do que alguma vez foram os inquisidores, mesmo os espanhóis.
A herança judaica de Norte a Sul de Portugal
Existem
cerca de 29 locais portugueses, grande parte localizados no interior do país,
onde é possível ver de perto a cultura judaica. Descobrir este legado em
Portugal é uma das missões da Rede de Judiarias de Portugal – Rotas de Sefaradi.
Esta é uma organização que apresenta uma lista de 37 aldeias, vilas e cidades
onde estas marcas estão presentes.
Destacamos as seguintes:
Belmonte
É
uma das vilas onde a presença judaica se faz sentir mais. Esta vila pertence ao
distrito de Castelo Branco e recebeu várias famílias judaicas a partir do
século XVI.
Em
2005, foi inaugurado o Museu Judaico de Belmonte, um dos pontos turísticos mais
importantes da região. Aqui, é possível explorar a história da população
judaica na região e em todo o país.
Évora
A
Judiaria de Évora é uma das maiores e mais importantes judiarias de Portugal.
Foi desenvolvida perto da grande praça da cidade. Aqui, vai encontrar portais
ogivais góticos que, em tempos, pertenciam a casas de judeus.
Foi,
também, em Évora que existiu uma das sete ouvidorias jurídicas, os tribunais judaicos portugueses.
Bragança
Mais
de 3.000 judeus expulsos de Espanha, em 1492, foram acolhidos em Bragança. A
Rua dos Gatos foi uma das ruas de Bragança que mais judeus abrigaram na época.
Em
junho de 2019, a cidade foi centro da cultura judaica durante cinco dias. Este
foi um momento de reflexão sobre a memória e o património deixado pelos judeus
em Portugal.
Lisboa
Também
a capital recebeu judeus em tempos e vivenciou feitos marcantes, uns mais positivos
do que outros. A título de exemplo, na Páscoa de 1506, milhares de judeus
perderam a vida num massacre, no Largo de São Domingos, no Rossio. Ainda hoje é
possível ver o memorial erguido no local em sua honra.
Uma
grande comunidade judaica encontrava-se também em Alfama, no Largo das
Alcaçarias. Antes do Terramoto de 1755, no espaço entre a Rua dos Fanqueiros e
do Elevador de Santa Justa, podia encontrar o cemitério judeu, um dos vários
equipamentos da Grande Judiaria de Lisboa. Hoje, este mesmo local está repleto
de espaços comerciais, cafés, restaurantes e hotéis.
Os Judeus no Brasil
O
Brasil foi local da primeira comunidade judaica estabelecida na América. Com a
expulsão dos judeus de Portugal, logo após a descoberta, judeus convertidos ao
catolicismo (cristãos-novos) já se haviam estabelecido na nova colônia. Ao
menos dois pisaram na terra quando Pedro Álvares Cabral chegou em 1500, fazendo
parte da sua tripulação: Mestre João, médico particular da Coroa Portuguesa e
astrônomo; e Gaspar da Gama, intérprete (ajudara Vasco da Gama nas Índias, onde
vivia) e comandante da nau que trazia mantimentos.
A
Kahal Zur Israel, no Recife, em Pernambuco, foi a primeira sinagoga das
Américas.
Nos
dez anos seguintes, outro judeu naufragou perto da costa brasileira e
integrou-se aos indígenas: João Ramalho, que serviu de intérprete para novos
portugueses que foram chegando. No mesmo período, Fernão de Noronha extraía
pau-brasil da costa atlântica; as árvores ficariam conhecidas como
"madeira judaica". Muitos judeus portugueses, procurando fugir da
intolerância católica em Portugal, viam no "novo mundo" a
oportunidade de praticar livremente seu culto, incluindo-se aí os
cristianizados que praticavam o judaísmo em segredo - os criptojudeus. Martim
Afonso de Sousa era um dos cristãos-novos que chegaram ao Brasil no século XVI,
como governante de uma das capitanias hereditárias. Entre o fim do
século XVI e meados do século XVII vários cristãos-novos prosperaram a ponto de
se tornar senhores de engenho, fazendo casamentos com cristãos-velhos e
integrando a aristocracia açucareira do Nordeste. Outros, porém, permaneceram
nas classes mais baixas como artesãos, agricultores e pequenos comerciantes. A
Coroa Portuguesa havia proibido sua participação na governança colonial, mas a
proibição não foi aplicada com rigor, havendo registro de muitos cristãos-novos
com cargos políticos nas vilas e posições de alto escalão na burocracia e no
clero. Com a chegada da Inquisição ao Brasil em 1591 a situação dos
cristãos-novos tornou-se complicada. Postos sob desconfiança de manterem
práticas judaicas, ocorreram denúncias de heresias, prisões e perseguições.
Mais
judeus pioneiros chegaram ao país na época das invasões holandesas do Brasil,
em 1630, uma vez que compunham na Holanda uma comunidade tolerada, razão pela
qual os holandeses foram bem recebidos pela comunidade judaica já estabelecida
no Brasil. O Nordeste brasileiro ficou sob o domínio holandês por vinte e
quatro anos e, neste período, muitos sefarditas se estabeleceram no país,
principalmente em Recife, onde se tornaram prósperos comerciantes e fundaram a
primeira sinagoga das Américas. Com a expulsão dos holandeses, a maioria dos
judeus estabelecidos no Brasil fugiram para os Países Baixos ou outras
possessões holandesas, como as Antilhas e Nova Amsterdã, que posteriormente
seria renomeada como Nova York após ser cedida aos ingleses. Ali fundaram a
primeira comunidade judaica dos Estados Unidos.
A bordo do navio Valk, cerca de 600 judeus deixaram Recife, em Pernambuco, expulsos pelos portugueses. Era o fim da ocupação holandesa no Brasil e também da liberdade de praticar sua religião.
Eles
queriam voltar à terra natal — a Holanda, onde o culto do judaísmo era
permitido devido ao calvinismo, uma versão mais liberal do cristianismo. De lá
haviam chegado mais de duas décadas antes, quando os holandeses conquistaram
parte do Nordeste brasileiro — de olho na produção e comércio do açúcar.
Mas uma
tempestade os desviou do caminho e o navio foi saqueado por piratas.
O
grupo foi resgatado por uma fragata francesa e levado à Jamaica, então colônia
espanhola, e acabou preso por causa da Inquisição espanhola.
Mas,
graças à intervenção do governo holandês, foram libertados e, por motivos
financeiros, parte deles seguiu para um destino mais próximo do que a Europa: a
colônia holandesa de Nova Amsterdã, atual Nova York, então um mero entreposto
comercial.
Olinda,
então cidade mais rica do Brasil Colônia, foi saqueada e destruída pelos
holandeses, que escolheram Recife como a capital da Nova Holanda. O mapa de
Nicolaes Visscher mostra o cerco a Olinda e Recife em 1630
As
últimas informações sobre a presença destes judeus ibéricos no Brasil datam de
meados do século XVIII. Nessa época, com o desenvolvimento da mineração na
colônia, milhares de portugueses se deslocaram para a região das Minas Gerais,
entre eles, um número considerável de cristãos-novos. Através da Inquisição,
muitos desses sefarditas foram julgados, enviados a Portugal e condenados à
prisão. De fato, muitos desses cristãos-novos não mais mantinham ligações com o
judaísmo, mas, por serem ricos comerciantes e mineiros, eram acusados de
praticar judaísmo por seus inimigos e dificilmente se livravam das condenações
da Inquisição.
No final do século XVIII, já não havia mais relatos sobre judeus no Brasil. Todos haviam saído da colônia ou se convertido ao Cristianismo, o que faz com que muitos brasileiros possuam, mesmo sem saber, origens em judeus portugueses.
Séculos XIX e XX
Em
1810 o tratado comercial entre Portugal e a Inglaterra incluiu em suas
cláusulas a liberdade de culto religioso, e com a promulgação da Constituição
do Império a liberdade foi confirmada. Isso incentivou uma nova onda de
imigração judaica. Somente a partir desta época é que os judeus no Brasil
passam a assumir abertamente a sua identidade religiosa, cultural e histórica.
Na Europa, os judeus enfrentavam constantemente os denominados pogroms, que
consistiam em perseguições em massa realizadas contra judeus, incluindo saques
e destruições de casas, realizados em vários países da Europa Ocidental e
Oriental, e tal situação fez com que se iniciasse, no final do século XIX, uma
emigração para fora do Continente, sobretudo para os Estados Unidos.
Entre
1872 e 1972, entraram no Brasil mais de 90 mil imigrantes de religião judaica.
O período mais importante foi entre 1920 e 1939, quando 50 mil judeus entraram
no Brasil. A maioria desses imigrantes era de asquenazes provenientes do
Império Russo, dos Bálcãs e da Europa Central, mas principalmente da Polônia.
Desde finais do século XIX, os Estados Unidos foram o destino de centenas de
milhares de imigrantes judeus, e a Argentina ocupava uma posição secundária.
Todavia, na segunda metade da década de 1920, esses dois países introduziram
restrições à entrada de determinados grupos de imigrantes, fato que culminou no
aumento da imigração judaica para o Brasil.
Alguns
imigrantes judeus sefarditas começaram a chegar ao Brasil no século XIX, vindos
sobretudo do Marrocos, e estabelecendo-se na Amazônia, principalmente em Belém,
onde fundaram em 1824 a mais antiga sinagoga ainda em funcionamento no Brasil.
O isolamento imposto aos sefarditas na Amazônia chamou a atenção de rabinos no
Marrocos. No início do século XX, decidiram enviar um rabino à Amazônia para
angariar fundos para uma yeshivá no Marrocos (ou em Jerusalém, não se sabe ao
certo) e fiscalizar o cumprimento das normas religiosas pela comunidade
estabelecida na floresta. O rabino Shalom Emanuel Muyal chegou à região em 1908
ou 1910, mas, dois anos depois de chegar a Manaus, morreu, provavelmente depois
de contrair febre amarela. Curiosamente, o rabino acabou por ganhar fama de
santo milagreiro entre os católicos locais. Foi enterrado no cemitério cristão,
pois não havia, então, cemitério judeu na cidade, e sua sepultura tornou-se
local de peregrinações. Zeloso, o rabino da sinagoga de Manaus mandou construir
um muro ao redor do túmulo, mas foi pior: os devotos católicos passaram a usar
o muro como suporte para placas e quadros em que faziam seus pedidos ao rabi
Muyal e também proclamavam as graças alcançadas. "Ele se tornou o santo
judeu dos católicos da Amazônia", admite Isaac Dahan, da sinagoga de
Manaus. Nos anos 1960, quando seu sobrinho, então ministro de governo do já
criado Estado de Israel, tentou trasladar os restos mortais do santinho, houve
protestos populares, e o governo do Amazonas pediu-lhe que não o fizesse. Enfim
a sepultura do rabi Muyal foi para o cemitério judaico, anexo ao católico, e o
santo rabi continuou a ser venerado no Amazonas.
No
Recife, entre o fim do século XIX e o início do século XX, instalou-se uma
comunidade constituída em sua maior parte por judeus de origem asquenaze
provenientes de países como Polônia, Ucrânia, Rússia, Áustria e Alemanha.
Alguns membros da comunidade asquenaze de Pernambuco tornaram-se notórios, como
Mário Schenberg, Leopoldo Nachbin, Paulo Ribenboim, Aron Simis, Israel
Vainsencher, Clarice Lispector, Leôncio Basbaum, e Noel Nutels, dentre outros.
Com a Proclamação da República do Brasil, uma nova Constituição foi promulgada, garantindo liberdade religiosa, o que facilitou a vinda de imigrantes judeus, desta vez um grande número de asquenazes: a maior parte era proveniente do Leste europeu, regiões da atual Polônia, Rússia e Ucrânia. A maioria desembarcava no porto de Santos e rumava para a cidade de São Paulo onde rapidamente se constituiu uma próspera comunidade de comerciantes judeus. Além de São Paulo (principalmente no Bom Retiro), os judeus marcaram presença no Rio de Janeiro, no Sul do Brasil e em outras partes do país. No Rio Grande do Sul a fazenda Philipson, fundada no ano de 1904, é considerada como a fundadora da primeira escola judaica no Brasil e está localizada no município de Itaara. Posteriormente os imigrantes e descendentes migraram do Bom Retiro para regiões nobres da cidade de São Paulo, como Higienópolis e Jardins. Na mesma época membros da comunidade judaica começaram a se instalar no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, que permanece como símbolo da colonização judaica na cidade. Uma das sinagogas do bairro, a União Israelita de Porto Alegre, completou o seu centenário em 2010 e é uma das mais antigas do Brasil e a quarta das Américas com atividades ininterruptas.
Na
década de 1920 o afluxo de judeus intensificou-se com a chegada de dezenas de
milhares de pessoas. Quando a imigração judaica cresceu o Brasil iniciava a sua
transição para uma sociedade crescentemente urbana e industrializada. Nesse
contexto, os judeus concentravam-se nas áreas do comércio e dos pequenos
empreendimentos domésticos. Desde a Antiguidade, os judeus apresentam
características predominantemente urbanas e os imigrantes que vieram para o
Brasil repetiram esse paradigma. Quase todos os judeus brasileiros se estabeleceram
em centros urbanos, e em 1940, 74,3% dos judeus do Brasil estavam concentrados
em apenas três cidades: São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Em 1980 quase
83% de todos os judeus brasileiros ainda assim se concentravam.
Com
a ascensão do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália na década de 1930,
uma grande população judia fugiu, mas como muitos países mantinham restrições
de imigração, boa parte dos refugiados teve dificuldade rm encontrar um novo
lar no exterior. No Brasil entraram muitos imigrantes, até que em 1935 o
governo de Getúlio Vargas começou a negar os vistos de imigração mesmo para
turistas. Vargas estava envolvido num projeto de abrasileiramento forçado das
minorias étnicas, e neste contexto a chegada de novos grupos tornava-se um
problema adicional. A partir de 1937, o Ministério das Relações Exteriores
emitiu pelo menos 26 circulares secretas impondo barreiras à entrada de judeus,
embora publicamente o governo apresentasse o país como amigável aos
estrangeiros. A despeito das restrições, a imigração continuou de forma
clandestina. Neste período houve mesmo ameaças de deportação em massa de
judeus, e embora elas nunca tenham sido concretizadas, vários indivíduos que
haviam se envolvido em movimentações políticas foram exilados. Depois de Vargas
se alinhar aos países do Eixo, a chamada "questão judaica" passou
para o segundo plano, surgindo defensores da presença de judeus no país. No
pós-guerra os judeus imigrantes e seus descendentes já estavam bem integrados
ao contexto brasileiro, e atuavam em todas as esferas da vida nacional, mas as
restrições à imigração só foram abolidas definitivamente em 1950. Até esta
data, sabe-se que cerca de 16 mil judeus tiveram seu visto de entrada recusado,
mas esse número provavelmente é muito maior.
À
medida que se integravam, os judeus fundaram jornais, bibliotecas, escolas,
associações de ajuda mútua e de apoio a recém-chegados; entraram na atividade
político-partidária; participaram da articulação do movimento sionista, e
fundaram sociedades para a preservação da cultura judaica e de apoio das
comunidades que cresciam. Na década de 1960 muitos judeus entraram na oposição
à ditadura militar, mas com a publicação do AI-5 e o endurecimento da repressão
política, uma expressiva quantidade de judeus brasileiros se transferiu para
Israel.
Uma
característica marcante da população judaica no Brasil é a taxa de natalidade
reduzida precocemente. Em 1940, havia 55.563 judeus no Brasil, número que
cresceu para 96.199 em 1960. Em algum momento da década de 1960, a taxa de
natalidade da comunidade judaica tornou-se negativa e ela passou a encolher: em
1991, os judeus estavam reduzidos a 86.417 pessoas. Parte desse fenômeno se
deve ao expressivo declínio da imigração que se verificou a partir da década de
1960, e também à crescente taxa de assimilação por casamentos mistos e
secularização. Em anos recentes algumas comunidades ultrapassam os 50%.na taxa
de casamentos mistos O censo brasileiro de 2010 registrou 107.329 judeus no
país.
Segundo
pesquisas de Monica Grin e Michel Gherman, a definição de judaísmo no Brasil é
flexível. Para alguns ela é baseada na prática da religião, mas para outros ela
se baseia principalmente em aspectos de natureza social, cultural, étnica e
histórica. De modo geral os que se auto-identificam como judeus brasileiros na
atualidade possuem alta escolaridade, nível de vida acima da média e uma fraca
adesão à religião tradicional. Entre os que praticam assiduamente a religião,
há uma predominância dos grupos ortodoxos, numa tendência que vem crescendo
desde os anos 1980 sob influência do fortalecimento da religiosidade de índole
conservadora em curso tanto nos Estados Unidos como em Israel.
Em anos recentes tem havido uma crescente apropriação de símbolos judaicos por grupos não judeus, geralmente cristãos e conservadores, num processo de aproximação com as ideologias e políticas conservadoras e direitistas e criação de uma imagem mitificada de Israel, que, segundo Gherman, "reorganiza identidades políticas, ideológicas e religiosas entre judeus e não judeus no Brasil" e provoca uma cisão entre judeus de esquerda e judeus de direita. As relações entre Brasil e Israel são relações exteriores entre a República Federativa do Brasil e o Estado de Israel. Os dois países estabeleceram relações diplomáticas em 7 de fevereiro de 1949. O Brasil possui uma embaixada em Tel Aviv e um consulado honorário em Haifa. Israel tem uma embaixada em Brasília e um consulado-geral em São Paulo. O atual embaixador de Israel no Brasil é Yossi Shelley e o embaixador brasileiro no Estado Judeu é Paulo César Meira de Vasconcellos. Há atualmente cerca de 120 mil Judeus no Brasil e mais de 25 mil Brasileiros em Israel.














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