Mikhail Gorbachev

 Hoje pouco se fala de Mikhail Gorbachev, o Secretário-geral do Partido Comunista e Presidente da União Soviética que acabou com o Partido Comunista e a União Soviética. O longo processo, que culminou em 1991, teve consequências à escala mundial; e pode dizer-se que mudou a História. E, na História, poucas vezes um homem teve a possibilidade e a coragem de alterar o status quo de uma maneira tão radical. Até hoje se pergunta como conseguiu fazê-lo e, também, porque o fez.

Sobre ele e sobre os esses acontecimentos já se escreveram milhares de livros, ensaios, avaliações e opiniões. O livro mais concludente, uma biografia pormenorizadíssima de 862 páginas em letra miúda, foi publicado em Portugal pela Editora Desassossego. O autor, William Taubman, é um académico norte-americano especializado na Rússia, que já anteriormente havia escrito uma biografia igualmente exaustiva de Nikita Khrushchov.

 No seu livro, descreve duas coisas que impressionaram; primeiro, como era sombria a vida na União Soviética nessa época e como ninguém confiava em ninguém; e também – e essa é a questão que coloca logo na introdução – como é que Gorbachev fez uma coisa tão extraordinária, como nunca tinha acontecido na Rússia, um líder abdicar do poder de livre vontade, e na História há muito poucos exemplos. Um líder, especialmente num sistema muito autocrático, nunca sai por decisão sua. Porque é que ele fez isso? tinha uma visão mais abrangente do mundo?

 Há muitas maneiras de ver a situação, mas havia muitos russos além dele que estavam interessados numa reforma. É frequente chamar-lhes os “filhos do Vigésimo Congresso do Partido”. (O Congresso onde Kruschev expôs os crimes de Estaline, em 1956.) Eram personagens da década de 1960 que achavam que Estaline tinha sido uma perversão do sistema, diferente do que Lenine tinha idealizado. Havia esta noção de que os ideais tinham sido traídos e haveria uma maneira de os recuperar. Ele fazia parte dessa escola e, portanto, não estava sozinho. O que é original nele é que era o único no topo do poder que acreditava nisso e estava disposto a agir. Os outros “filhos do Vigésimo Congresso” eram professores e intelectuais que não tinham poder. Portanto os dois verdadeiros enigmas são, porque é que ele fez o que fez, e como é que o deixaram fazer. Ele ocultou sempre as suas convicções, à medida que subia os degraus do poder?

A verdade é que ele não as ocultou sempre. Às vezes não dizia nada, outras vezes fazia o que precisava fazer – em 1968 disseram-lhe que tinha de condenar Sadykov e ele fê-lo – Sadykov era um amigo dele que escreveu um livro mais liberal e disseram-lhe que tinha de o condenar. Portanto, ele cumpriu os seus compromissos.

 

                                                       Com Margareth Tatcher

Nessa altura ele ainda não tinha a ideia de que era preciso mudar o sistema. À medida que cumpria e ia subindo na hierarquia ia vendo os defeitos. E muitas vezes demonstrou que ele não estava satisfeito com a incompetência e a corrupção que grassavam no aparelho do Partido e sobretudo na Comsomol, onde fez carreira. (A Comsomol era a organização juvenil do Partido). Um sistema assim hierarquizado e rígido tem sempre muita corrupção. E ele lentamente tomou consciência da “maldade” da burocracia.

 O seu melhor amigo na universidade era o checo Zdenek Mlynár. Em 1968, Mlynár foi o principal ideólogo de Dubchek. O que Mlynár queria era o comunismo com um rosto humano. E era também isso que Gorbachev achava que seria útil. Mas não queria uma mudança, talvez antes uma evolução do sistema.

 E em 1985, quando chegou ao poder, ainda era esse o seu objetivo. Ele não sabia com que rapidez podia agir, e ao princípio agiu muito devagar, porque receava as pessoas que demitiram o Kruschev, e achava que o podiam demitir também. Portanto foi muito secretivo, muito cuidadoso. A única mudança inicial foi a Glasnost (“Transparência”), mas mesmo essa foi feita de um modo limitado. A mudança mais radical aconteceu em 1987 e 1988, quando ele começa a perceber que mesmo as reformas mais moderadas estão a ser bloqueadas pelo aparelho do Partido. É então que decide fazer a grande rotura e promover eleições livres para criar um parlamento operacional, para que a Glasnost se transformasse numa verdadeira liberdade de opinião. Essa é que foi a grande rotura. Acho que a oposição às suas reformas mais ponderadas levou-o a fazer a rotura.

 Era uma mudança política; do ponto de vista económico, estaria tentando um mercado livre?

 Era uma questão mais complicada e é conhedido que ele não sabia nada de economia. Ao comparar com Deng Xiaoping, vemos que o líder chinês reformou a economia, mas não mudou o regime político. Gorbachev fez o oposto. Aliás, diz-se que foi por ver o que aconteceu na União Soviética que Xiaoping resolveu inverter o processo.

Não se pode mudar o sistema político se não se muda a economia, porque a política é precisamente a orientação económica...

 

                                                 Com François Miterrand

Ele acreditava na democracia, mas não se interessava pela economia. Compreendia que um mercado mais aberto provavelmente era melhor para a economia, mas mexia-lhe com os nervos e tinha medo do que pudesse provocar. E acabou por não abrir o mercado, essa reforma ficou para o Ieltsin.

 Deu no entanto a impressão que o aparelho do partido percebeu que estaria melhor numa sociedade capitalista do que numa sociedade comunista, e não foram contra a mudança do sistema económico porque realizaram que haveria privatizações das imensas empresas estatais e que poderiam apropriar-se dessas privatizações. Era melhor dominar num mercado aberto, cheio de oportunidades comerciais, do que numa economia estatal estagnada. As máfias do poder passaram a ser as máfias da economia – mantendo o poder de outra maneira.

 Foi o que fizeram muitos deles, no Partido e no Comsomol. Gorbachev até os encorajou, de certa maneira, quando incentivou o Comsomol a meter-se em negócios. Claro que as pessoas que tentaram demiti-lo, em 1991, no Golpe de Agosto – Kriuchkov, o tipo do KGB, e Yazov, Boldin e outros – não queriam uma mudança política.

 Há sempre a linha dura que não vê vantagens numa mudança. Mas os espertos perceberam o que tinham a ganhar. Podiam sair do país, flanar pelo mundo, viver sumptuosamente no estrangeiro, comprar clubes de futebol...Mas, o Gorbachev teve a iniciativa, e também teve a sorte de viver numa altura em que o partido estava fossilizado e a economia inerte. Os americanos não tinham meios de influenciar essa mudança, foi uma conjuntura unicamente interna.

 Os membros linha dura do Politburo dessa época, acusaram .os americanos, de destruírem o sistema soviético, mas essa não é a verdade. De facto, quando Bush foi a Kiev, em 1991, até disse aos ucranianos para não se tornarem independentes.

Isso era o mesmo que acontecia no Ocidente durante a Guerra Fria; quando os ditadores se viam em perigo, diziam sempre que a culpa era dos comunistas. 

                                                        Com Ronald Reagan

Mas parece que 1985 foi a altura certa... O sistema estava cada vez mais fraco e havia cada vez menos pessoas a acreditar. Como disse o Soljenitsin, a ideologia estava morta, mas mesmo assim continuava a governar, porque as pessoas tinham de fazer de conta que acreditavam nela. Portanto coloca-se a pergunta se não teria sido possível mudá-la em 1968, quando os checos tentaram. O fato porém é que uma potência como a URSS não podia aceitar uma mudança vinda de uma pequena colónia e, além disso, na década de 1960 os defensores do sistema estalinista eram muito mais fortes, ainda achavam que o regime tinha futuro. Em 1985 toda a gente sabia que era preciso mudar alguma coisa. Portanto era a altura certa; ainda que na Rússia nenhuma altura é certa para nada...

Tanto que em 1991 veio o golpe em Gorbachov e este acabou por ser substituido por Ieltsin, que conseguiu segurar o movimento para destituir o seu colega de governo,

------------------------------

Extrato de uma entrevista jornalística sobre a Rússia

 Não sei se isto tem uma sustentação lógica, mas o que se vê é que a Rússia sempre teve um sistema autocrático. Houve três regimes, a monarquia, o bolchevismo e a democracia, mas é sempre uma autocracia, para não dizer ditadura. Acha que é por ser um país tão grande e com um clima tão inclemente? Porque cada um dos regimes tem o seu vocabulário, mas a situação é sempre a mesma, basicamente. Putin não é muito diferente do Estaline: manda matar – não usa o sistema de quotas do Estaline, é verdade – mas manda matar quando lhe convém, exerce um poder absoluto como o czar exercia.

 Bem, esse é outro assunto muito interessante, mas não acho que o Putin seja totalitário, prefiro chamar-lhe autoritário. Mas qual será o problema da Rússia? Bem, acho que é o poder da História e da tradição. Séculos de autoridade forte, o modo como os camponeses aceitavam as suas dificuldades com uma atitude fatalista.

 Porque eles tiveram dois curtos períodos de pluralidade política, em 1917 e 1985-86...

 A ironia é que eles tiveram um momento de liberdade em 1917 que resultou no bolchevismo, e depois tiveram outro momento com Gorbachev que produziu o colapso do país e a perda do império. Aprenderam essa lição, que a democracia dá resultados terríveis!

 Atualmente essa é a grande questão, agora que os autocratas estão a despontar um pouco por toda a parte...

 É verdade; no Brasil, Polónia, Estados Unidos, Filipinas...

 E são autocratas declarados, nem sequer pretendem ser democráticos. Claro que é diferente de país para país. Nos Estados Unidos há um sistema de “checks and balances” que está desatualizado, mas ainda funciona.

 Acha que está desatualizado?

 Sim. É preciso lembrar-nos de que a Constituição dos Estados Unidos foi o primeiro documento democrático da Idade Contemporânea. Foi promulgada em 1787, dois anos antes da Revolução Francesa. Portanto eles não tinham nenhumas referências anteriores, tiveram que a construir a partir do zero. O resultado foi incrível, até no cuidado em criar as tais verificações e equilíbrios. Um regime realmente novo, porque dizemos que a Grécia Clássica era uma democracia, mas não era. Pode dizer-se que o parlamentarismo inglês do século XVII era uma democracia, mas também não era, num conceito contemporâneo: só os cavalheiros (“gentry”) tinham oportunidade de ser membros do Parlamento. Então esse documento de 1787 foi uma tentativa inédita. Algumas normas podiam ser aperfeiçoadas com a experiência de todas as constituições criadas depois, um pouco por todo o mundo. O sistema dos colégios eleitorais, por exemplo. Compreende-se porque foi criado, mas o vencedor não é o que teve mais votos.

 Eram proteções contra a possibilidade de uma tirania, e para proteger a vontade da maioria.

Pois claro. Como também o sistema bicameral. Tudo isso faz sentido. Agora, para os americanos a Constituição é sagrada. Como não têm uma História anterior, a Constituição é como uma Bíblia. Muito difícil de mudar alguma coisa. Fazem-se acrescentos (“Amendments”) e nada mais. Mas podiam-se fazer algumas mudanças. Uma eleição direta para Presidente, por exemplo.

 Pois é. Sabe que o Estado de Wyoming, com uma população de 500 mil habitantes, tem dois senadores? A Califórnia, com 40 milhões de habitantes, também tem dois senadores.

 "FALEI COM CORRELIGIONÁRIOS DELE E LEMBRO-ME QUE UM DELES DIZER, MUITO ZANGADO, QUE ELE DEVIA TER MANDADO PENDURAR UNS DOZE (ADVERSÁRIOS) EM CANDEEIROS. ISSO TERIA DADO O SINAL CERTO. MAS ELE NÃO FARIA ISSO, NÃO O FEZ."

O Senado foi criado precisamente para compensar as diferenças populacionais entre estados.

A Califórnia tem 53 membros na Câmara  dos Representantes, e o Whoming tem só um. Este sistema

bi-cameral dá uma discussão interminável. Nós tivemo-lo aqui em Portugal, mas agora não temos. Nunca se sabe se é melhor ou pior. Mas voltando ao Gorbachev; a grande pergunta é como é que ele conseguiu ser o que foi, talvez o político mais importante do século XX, como você diz.

Talvez pense que eu exagero, mas vendo a posteriori, acho que foi. Ele é em parte o resultado da sua infância, da família, especialmente do pai. E os avós. Como é que ele emerge daqueles tempos terríveis como uma pessoa tão confiante, tão otimista, que confia tanto nos outros? Acho que ele foi muito bem tratado pelo pai e pelos avós, até pela mãe – que era dura, mas manteve-o vivo durante a guerra. E é uma coisa genética, também.

Você conta que ele tinha duas qualidades realmente significativas, no contexto da União Soviética daqueles tempos: não bebia, e era um bom marido e bom pai.

Pois, não é nada normal na Rússia. Era uma exceção, tanto psicológica como política.

 

                  Hoje, vive calmo e tranquilo em Sochi a Riviera Russa do Mar Negro

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog