7 Alzira Soriano
Há 93 anos, uma mulher cravou o nome na
história mundial, abrindo caminho para as 285 mulheres eleitas no Estado nas
últimas eleições, para o cargo de vereadoras ou prefeitas.
Mais de 80 anos antes de
Dilma Rousseff ser eleita a primeira mulher presidente do Brasil, Alzira
Soriano foi a primeira escolhida pelo povo para um cargo executivo no país –
quando mulheres nem sequer tinham o direito de votar. Em 1928, Alzira, viúva e
mãe de três filhas, conquistou 60% dos votos e em 1º de janeiro do ano seguinte
foi empossada prefeita de Lajes, no Rio de Grande do Norte. Foi a primeira
mulher da América Latina a assumir o governo de uma cidade, tendo merecido notícia publicada na época pelo jornal
americano “The New York Times”.
A distância no tempo não é apenas
grande entre Alzira e Dilma, mas entre ela e todas as outras mulheres que
assumiram cargos executivos no país. A primeira prefeita de uma capital, Maria
Luiza Fontenele, de Fortaleza, tomou posse 57 anos depois de Alzira, em 1986. A
primeira governadora, Iolanda Fleming, do Acre, em maio do mesmo ano. A
primeira prefeita da maior cidade do país, Luiza Erundina, em 1989.
Biografia de Alzira
Soriano, a primeira prefeita da América
postado por Barão de Ceará-Mirim setembro 01, 2013
A fotografia histórica da posse da primeira prefeita eleita da América
Latina
Na foto feita em 1930, a solitária mulher ao centro (com figurino típico
da novela O Cravo e a Rosa), está rodeada exclusivamente por homens. Alzira
teve de enfrentar fofocas e maledicências para conseguir um posto no staff da
política do sertão central.
Empenhada em não deixar morrer a memória da mãe, Ivonilde solicitou à Fundação
José Augusto o tombamento da residência onde Alzira viveu até ao casamento. O
processo de tombamento está em andamento no Conselho Estadual de Cultura.
A residência onde Alzira Soriano nasceu, na pequena
Jardim de Angicos, a 124 quilômetros de Natal, guarda fotos valiosas do começo
do século XX, além de objetos pessoais, todos carinhosamente guardados pela
filha caçula da primeira prefeita da América Latina, Ivonilde Soriano de Souza,
com 80 anos.
Desde 1990, Ivonilde retornou ao Jardim de Angicos para resgatar a
história da mãe. Solicitou a construção de uma praça, ao lado da residência a
ser preservada. Um busto da representante mais ilustre da cidade de 2.660
habitantes ornamenta o passeio público.
Morando na residência desde então, Ivonilde não deixa descaracterizar a casa.
Seu maior sonho é transformá-la em memorial com o apoio do poder público
municipal.
Há 110 anos, o pai de Alzira Soriano, Miguel Teixeira de Vasconcelos, construiu
a casa onde criaria as sete filhas e um filho. A mulher que se tornaria a
primeira prefeita eleita da América Latina era a mais velha e sempre o ajudou
nas campanhas. Miguel era líder político da região e dono de vastas terras. A
residência tem três salas, cinco quartos, uma cozinha, dois banheiros e área. De
acordo com a análise feita pelo arquiteto Paulo Heider, da Fundação José
Augusto, e que foi anexada ao processo de tombamento, a residência mantém
várias características marcantes do século XIX. "Tanto na técnica
construtiva, como nos materiais empregados. "O telhado é feito com caibros
roliços, lavrados feitos de facheiro (espécie de cactus) e linhas de carnaúba e
aroeira. Tudo providenciado com vegetação abundante na caatinga. Uma parte da
casa está reservada para os objetos de Alzira. Fotos dos casamentos de família,
os móveis do quarto dela, os livros da estante pessoal. Na área livre da casa
está sendo preparada uma lanchonete, banheiro e mesinhas, com intuito de
atender os visitantes. Uma vida de sacrifícios pessoais e muita luta
Luzia Alzira Teixeira Soriano, perdeu o marido aos 22 anos, ainda grávida da
filha mais nova, Ivonilde Soriano. Ela chegou a morar em Ceará Mirim, onde o
marido era promotor. "Meu pai morreu em 20 de janeiro de 1919 e eu nasci
em 25 de março", conta Ivonilde. Thomaz Soriano morreu de gripe espanhola.
Alzira ainda tentou morar em Recife com a família do marido, mas o patriarca
que a levou à cidade pernambucana morreu e ela retornou ao RN. Em 1932 foi para
Natal com intuito de oferecer melhor estudo para as filhas. O terreno da casa
na avenida Floriano Peixoto já havia sido adquirido pelo marido e Alzira teve
de se desfazer de alguns bens para erguer a residência. "Ela trabalhava
costurando", conta Ivonilde. Quando as filhas Sônia (já
falecida), Ismênia e Ivonilde casaram no final da década de 30, Alzira retornou
para a fazenda Primavera, em Jardim de Angicos. Nessa época, a casa que deve
ser tombada ficava fechada sendo aberta em eventos importantes como festas na
Igreja e no Natal. Com a morte do pai, Alzira assumiu o comando da herança
paterna também na política. Somente com a redemocratização em 1945 voltou à
vida pública como vereadora. Foi eleita por mais duas vezes consecutivas e
liderando a União Democrática Nacional (UDN) e chegou à presidência da Câmara
de Vereadores mais de uma vez. Ivonilde ouvia sempre as idéias feministas
"Minha mãe dizia que mulher tem de se desenvolver. Não deve ficar só na
cozinha e cuidando dos filhos. Alzira morreu aos 67 anos, em 28 de maio de 1963
por complicações de um câncer no ovário. Ouvir impropérios era rotina na vida
de Alzira.
Apoiada pelo então governador Juvenal Lamartine, Alzira Soriano foi obrigada a
ouvir verdadeiros impropérios contra a sua participação na política. A filha
dela, Ivonilde Soriano, menciona que chegavam a cogitar que Alzira estava de
namoro com o governador para justificar a candidatura. "Ela sofreu muito
moralmente", lembra Ivonilde. No Livro ‘Dicionário das Mulheres do Brasil’
é narrado que a primeira prefeita eleita na América Latina teve de ouvir “ser
prostituta quem entrava na política”, pois mulher de família
não poderia ser votada. O gosto de Alzira pela política pode ter nascido da
orientação paterna. O pai Miguel Teixeira "mandava no município todo"
conforme explica Ivonilde Soriano. O marido de Alzira, Thomaz Soriano de Souza
Filho, era um dos nomes da lista de candidatos a governador no começo do
século, recorda Ivonilde.
A liderança de Alzira (que estava sempre à frente da campanha política do pai)
chamou a atenção da advogada feminista Bertha Lutz. Esta em companhia de
Juvenal Lamartine visitou Lajes e foi a responsável por influenciar a indicação
de Alzira para candidata a prefeita de Lajes pelo partido republicano. Apoiada
pelo governador Junenal Lamartine Alzira derrotou Sérvulo Galvão, um político
conhecido na região obtendo mais de 60% dos votos. Na opinião de Ivonilde
Soriano, a mãe ganhou a eleição pela simpatia, pela caridade que praticava e o
poder político de Miguel Teixeira. "Minha mãe tinha personalidade forte.
Quem a cutucasse podia ter a certeza que ela responderia de volta." Muitos
se perguntam porque Alzira foi prefeita de Lajes e não de Jardim de Angicos,
onde ela nasceu. A explicação, segundo Ivonilde, é que com a passagem da
estrada de ferro por Lajes, a cidade se desenvolveu, enquanto Jardim de Angicos
parou no tempo. A administração da primeira prefeita do Brasil foi tida como
competente e íntegra, resultando em construções de novas estradas. Uma delas é
a ligação entre Cachoeira do Sapo e Jardim de Angicos. Curiosamente a estrada
permanece do mesmo jeito da administração Soriano. Ela também construiu
mercados públicos distritais, fez escolas e cuidou da iluminação pública a
motor. Mas teve pouco tempo de administração. Ivonilde calcula que o poder
municipal ficou nas mãos de Alzira cerca de sete meses. Com a revolução de 1930,
ao recusar a oferta de Mário Câmara de tornar-se "Interventora
Municipal" perdeu o mandato. "Naquele tempo ninguém trocava de
partido como hoje. Morria no que estava", ressalta Ivonilde, para
justificar a atitude da mãe.
COMO CHEGAR — O visitante deve pegar a BR-304 que
liga Natal a Mossoró. Quando chegar na cidade de Cachoeira do Sapo observará a
placa de entrada de Jardim de Angicos entrando a direita. Da BR até Jardim são
14 quilômetros de estrada de terra. A casa de Alzira Soriano fica próxima a Telern.
Jardim de Angicos é uma cidade pequena, encravada no sertão central, que vive
da agricultura de subsistência e da renda dos funcionários municipais. Segundo
os dados preliminares do Censo 2000 a cidade tem 2.660, sendo que a população
rural ainda é maior que a urbana. São 2.116 pessoas na zona rural e 544 na zona
urbana.


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