Israel-Palestina:
Entenda como começou
este
conflito histórico centenário
Durante décadas, jornais, historiadores, especialistas militares, diplomatas e líderes mundiais fizeram a mesma pergunta
“O conflito
Israel-Palestina provocou dezenas de milhares de mortos e deslocou milhões de
pessoas desde o seu início, com raízes na colonização britânica da região há
mais de um século. A atenção se voltou mais uma vez para ele após o ataque do
grupo terrorista Hamas a Israel no dia 7, que surpreendeu o mundo pela
facilidade de transpor as fronteiras até então vistas como intransponíveis de
Israel.”
“A nova ofensiva do
grupo terrorista deixou mais de 900 israelenses mortos em várias cidades do sul
de Israel. Jerusalém respondeu decretando um estado de guerra contra o Hamas e
bombardeando a Faixa de Gaza. O enclave foi cercado e mais de 1,1 mil palestinos
morreram até esta quarta-feira, 11. Enquanto a brutalidade se alonga, com
denúncias da ONU de crimes de guerra de ambos lados, muitos se perguntam quando
e como isso chegará ao fim.”
“Guerra Israel-Hamas:
Faixa de Gaza está à beira do colapso humanitário
Brasileiros vão
deixar escola após ultimato de Israel; alguns já estão no sul
Durante décadas,
jornais, historiadores, especialistas militares, diplomatas e líderes mundiais
fizeram a mesma pergunta. Muitos definem o conflito como impossível de se
resolver, complexo e travado.”
Mas como começou tudo
isso?
1917: Declaração
Balfour
Em 2 de novembro de
1917, o então ministro das Relações Exteriores do Império Britânico, Arthur
Balfour, escreveu uma carta endereçada a Lionel Walter Rothschild, líder da
comunidade judaica do Reino Unido, com uma promessa: comprometer o governo
britânico a "estabelecer na Palestina um lar nacional para o povo
judeu" e a facilitar o plano.
Essa carta, de apenas
67 palavras, ficou conhecida como Declaração Balfour e provocou o efeito
político na região que se estende até os dias de hoje. O maior potência da
época, o Império Britânico, prometia ao movimento sionista criar um país em um
território que era 90% ocupado por árabes palestinos e por uma minoria judaica.
Esse território foi
escolhido graças a localidade de Jerusalém, considerada uma cidade sagrada pelo
judaísmo, o cristianismo e o islamismo e disputada diversas vezes nos séculos
anteriores. Para os judeus, a região era o seu lar ancestral, mas os árabes palestinos
também reivindicaram a terra e se opuseram à mudança.
Esse território foi,
ao longo do tempo, dominado por diferentes grupos, impérios e nações, incluindo
judeus, assírios, babilônios, persas, macedônios, romanos, bizantinos.
Naquele ano o
território palestino estava sob o mando do Império Otomano, que lutava contra o
Império Britânico na Primeira Guerra. Após a derrota dos otomanos, a região foi
repartida entre França e Inglaterra, que ficou com as terras da Palestina.
O mandato britânico
foi criado em 1923 e durou até 1948. Nesse período, os britânicos facilitaram a
imigração judaica em massa, muitos dos quais fugiam do nazismo que dominava a
Europa, e também enfrentaram protestos e greves dos palestinos, alarmados com a
mudança regional e com o confisco britânico de suas terras.
A escalada entre
árabes e britânicos acabou causando a Revolta Árabe. Em abril de 1936, o
recém-formado Comitê Nacional Árabe convocou os palestinos a lançar uma greve
geral, reter pagamentos de impostos e boicotar produtos judaicos para protestar
contra o colonialismo britânico e a crescente imigração judaica. A ação foi
reprimida pelos britânicos, que começaram a fazer prisões em massa e a demolir
as residências de famílias árabes como punição.
No fim de 1937, o
movimento de resistência camponesa palestina respondeu à repressão britânica e
atacou as forças militares que estavam no país. Nos anos que se seguiram, o
Reino Unido concentrou 30 mil soldados no território da Palestina, bombardeou
aldeias, impôs toques de recolher, demoliu casas e executou milhares de
moradores.
A última fase do
conflito contou com a colaboração dos colonos judaicos que chegaram à região.
Juntos com o Império Britânico, eles formaram grupos armados e uma chamada
"força de contrainsurgência" para contra-atacar os palestinos. Em
três anos, estima-se que cinco mil palestinos morreram, 15 a 20 mil foram
feridos e 5,6 mil, presos.
1947: O plano de
partilha da ONU
Em 1947, a população
judaica havia aumentado para 33% da Palestina, mas eles possuíam apenas 6% das
terras. A recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU) adotaram, então, a
Resolução 181, que pedia que o território palestino fosse partilhado em dois
Estados, um árabe e outro, judeu. Jerusalém seria uma cidade internacional
comandada pela ONU.
Os palestinos
rejeitaram o plano porque destinava cerca de 56% da Palestina ao Estado que
viria a ser Israel, incluindo a maior parte da região costeira fértil. Na
época, os palestinos compreendiam 67% da população do território palestino.
Antes do mandato
britânico chegar ao fim na Palestina, em 14 de maio de 1948, os grupos
paramilitares sionistas, que haviam nascido durante a Revolta Árabe, realizavam
operações militares em cidades e vilas para expandir fronteiras do Estado
judaico que estava para ser criado.
Em 15 de maio de
1948, o Estado de Israel foi criado sem uma solução pacífica com os árabes. Os
palestinos se opuseram à criação por considerarem que a terra havia sido
roubada e receberam apoio dos países árabes da região. No dia seguinte, a
primeira guerra árabe-israelense começou, durando até janeiro de 1949, quando
um armistício entre Israel e Egito, Líbano, Jordânia e Síria foi acordado.
Estima-se que até
1948 mais de 500 vilas e cidades palestinas foram destruídos, no que ficou
conhecido entre eles de Nakba, que significa "catástrofe" em árabe.
Segundo historiadores, mais de 15 mil palestinos foram mortos.
Em 1948, 78% do
território histórico da Palestina havia sido dominado pelos judeus, e os 22%
foram divididos entre o que hoje são a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Estima-se
que 750 mil pessoas foram forçadas a deixar suas casas. Essa população se
espalhou pela Cisjordânia, Líbano, Síria, Jordânia e Egito.
Em 1964, a
Organização para a Libertação da Palestina (OLP) foi formada e, um ano depois,
o partido político Fatah foi estabelecido.
Em 5 de junho de
1967, Israel ocupou áreas da Palestina histórica, incluindo a Faixa de Gaza, a
Cisjordânia, Jerusalém Oriental (comandada então pela Jordânia), as Colinas de
Golã sírias e a Península do Sinai egípcia contra uma coalizão de exércitos árabes
na chamada Guerra dos Seis Dias, que teve início pelas tensões anteriores e por
Israel considerar o movimento militares próximos às fronteiras como ameaça.
Os colonos começaram,
então, a construção dos assentamentos judeus na Cisjordânia ocupada e na Faixa
de Gaza.
Para alguns
palestinos, isso levou a um segundo deslocamento forçado, ou Naksa, que
significa "retrocesso" em árabe. Apesar de uma resolução da ONU que
garantia o direito dos refugiados palestinos de voltarem para Israel, isso foi
continuamente negado com a justificativa de que isso sobrecarregaria o país e
colocaria em ameaça o Estado judeu.
Em dezembro de 1967,
foi formada a Frente Popular Marxista-Leninista para a Libertação da Palestina.
Na década seguinte, uma série de ataques e sequestros de aviões por grupos de
esquerda chamaram a atenção do mundo para a situação dos palestinos.
A chamada Primeira
Intifada palestina irrompeu na Faixa de Gaza em dezembro de 1987, depois que
quatro palestinos foram mortos após um caminhão israelense colidir com duas
vans que transportavam trabalhadores palestinos. Greves bem organizadas,
mobilizações populares e protestos em massa eclodiram a partir daí.
Os protestos se
espalharam rapidamente para a Cisjordânia, com jovens palestinos atirando
pedras contra tanques e soldados do exército israelense. Também levou ao
estabelecimento do movimento Hamas, um ramo da Irmandade Muçulmana que se
engajou na resistência armada contra a ocupação israelense.
A resposta do
exército israelense foi encapsulada pela política "Quebre seus ossos"
defendida pelo então ministro da Defesa, Yitzhak Rabin. Incluiu assassinatos,
fechamento de universidades, deportações de ativistas e destruição de casas,
repetindo estratégias dos britânicos no início do século.
Segundo a organização
israelense de direitos humanos B'Tselem, 1.070 palestinos foram mortos pelas
forças israelenses durante a Intifada, incluindo 237 crianças. Mais de 175 mil
palestinos foram presos.
A Intifada foi
realizada principalmente por jovens e dirigida pela Organização de Libertação
da Palestina (OLP), uma coalizão de facções políticas palestinas comprometidas
em acabar com a ocupação israelense e estabelecer independência palestina. Em
1988, a Liga Árabe reconheceu a OLP como o único representante do povo
palestino e a comunidade internacional começou a buscar uma solução para o
conflito.
A Intifada terminou
com a assinatura dos Acordos de Oslo em 1993 e a formação da Autoridade
Palestina, um órgão de governo interino que recebeu autogoverno limitado em
áreas da Cisjordânia ocupada e da Faixa de Gaza.
A OLP reconheceu
Israel com base em uma solução de dois Estados e efetivamente assinou acordos
que deram a Israel o controle de 60% da Cisjordânia e de grande parte da terra
e dos recursos hídricos do território. A Autoridade Palestina deveria abrir
caminho para o primeiro governo palestino eleito comandando um Estado
independente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, com capital em Jerusalém
Oriental, mas isso nunca aconteceu.
Os críticos da
Autoridade Palestina a veem como um órgão corrupto e cooptado por Israel que
colabora estreitamente com os militares israelenses na repressão à dissidência
e ao ativismo político de outros grupos contra Israel.
Em 1995, Israel
construiu uma cerca eletrônica e um muro de concreto ao redor da Faixa de Gaza,
interrompendo as interações entre os territórios palestinos divididos.
A Segunda Intifada
começou em 28 de setembro de 2000, quando o líder do partido israelense Likud,
Ariel Sharon, fez uma visita a esplanada de mesquitas de Al-Aqsa, lugar sagrado
para o islamismo, com milhares de forças de segurança posicionadas dentro e ao
redor da Cidade Velha de Jerusalém.
A visita desencadeou
confrontos entre manifestantes palestinos e forças israelenses mataram 5
palestinos e feriram 200 em dois dias. Depois disso, houve um levante armado
generalizado entre israelenses e árabes.
Durante a Segunda
Intifada, Israel causou danos sem precedentes à economia e à infraestrutura
palestinas, ocupou áreas governadas pela Autoridade Palestina e iniciou a
construção de um muro de separação que, juntamente com a construção desenfreada
de assentamentos, destruiu meios de subsistência e comunidades palestinas.
Os assentamentos da
área da Cisjordânia são ilegais sob o direito internacional, mas ao longo dos
anos centenas de milhares de colonos judeus se mudaram para colônias
construídas em terras palestinas. O espaço para os palestinos se encolheu à
medida que estradas e infraestrutura exclusivas para colonos cortam a região.
Na época em que os
Acordos de Oslo foram assinados, pouco mais de 110 mil colonos judeus viviam na
Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental. Hoje, o número é de mais de 700 mil
vivendo em mais de 100 mil hectares de terras expropriadas dos palestinos.
2004-2007: A divisão palestina e o bloqueio em Gaza
O líder da OLP,
Yasser Arafat, morreu em 2004 e, um ano depois, a segunda Intifada terminou, os
assentamentos israelenses na Faixa de Gaza foram desmantelados e soldados
israelenses e 9 mil colonos deixaram o enclave.
Um ano depois, os
palestinos votaram em uma eleição geral pela primeira vez. O Hamas conquistou a
maioria. Uma guerra civil entre Fatah e Hamas eclodiu e resultou na morte de
centenas de palestinos. Após derrotar o Fatah, o Hamas expulsou o partido da Faixa
de Gaza, e o Fatah retomou controles de partes da Cisjordânia.
Vista como uma
organização terrorista por Israel, a vitória do Hamas na Faixa de Gaza levou o
Estado israelense a impor em 2007 um bloqueio aéreo, terrestre e naval na Faixa
de Gaza. O Hamas tem como objetivo expresso o fim do Estado de Israel.
2007-Hoje: As
guerras na Faixa de Gaza
Após se retirar de
Gaza e impor o bloqueio, Israel lançou quatro ataques militares prolongados em Gaza:
em 2008, 2012, 2014 e 2021. Milhares de palestinos foram mortos, incluindo
muitas crianças, e dezenas de milhares de casas, escolas e edifícios de
escritórios foram destruídos. A reconstrução tem sido quase impossível porque o
bloqueio impede que materiais de construção, como aço e cimento, cheguem a
Gaza.
O Egito também
contribui para o bloqueio na Faixa de Gaza, na intenção de isolar o Hamas e
pressioná-lo a parar os ataques, particularmente o lançamento indiscriminado de
foguetes contra cidades israelenses. Os palestinos em Gaza dizem que as
restrições de Israel e seus ataques aéreos em áreas densamente povoadas
equivalem a punição coletiva.
A comunidade
internacional considera que o bloqueio de 2007 exacerbou significativamente as
restrições anteriores, limitando o número e as categorias especificadas de
pessoas e bens permitidos para entrar e sair através das travessias controladas
por Israel.
Segundo a Unicef, as
forças israelenses restringiram em grande parte o acesso a áreas a menos de 300
metros do lado de Gaza da cerca perimetral com Israel; áreas a várias centenas
de metros são consideradas não seguras, impedindo ou desencorajando as atividades
agrícolas. A situação se degradou progressivamente, com 1,3 milhões de 2,1
milhões de palestinos em Gaza necessitando de ajuda humanitária e com grande
parte da água do enclave (78%) sendo imprópria para consumo.

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